sábado, 28 de agosto de 2010

Despedida

Escrever email de despedida na firma não é tarefa fácil. Coisa engraçada escrever para pessoas que passaram um bom tempo contigo, mas que ao mesmo tempo passaram menos tempo de verdade com você. É um tempo esquisito. Te conhecem, mas não te conhecem. É um adeus, uma página virada. É parte de você tudo o que viveste ali. Você é tudo aquilo que foi ali e o que vai ser depois. E o email acaba curto, e as pessoas que respondem com um "não some" são as que vão saber menos de você, não porque você vai desaparecer num passe de mágica, mas porque elas não fazem questão mesmo. E é assim, e tá beleza. E respirar novos ventos é uma delícia. Quem nem se apaixonar, é bom quando dá aquele friozinhona barriga. E bora.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Sete vidas, assim espero

Daí que não que não tinha mais como frear. Era segurar o volante e fechar os olhos (no figurativo, claro). Se tentasse desviar capotaria o carro, fato. Com as pupilas mais arregaladas do que nunca parei uns 30 metros adiante e espiei no retrovisor. Lentamente vi o coitado do gato levantando e se arrastando até a guia. Outros carros esperavam já, não podia mais ficar parado. Respirei e segui adiante. Dali por diante meu culpômetro estorou o limite. E se eu tivesse parado, recolhido o gato e levado para o hospital veterinário? Além dos mil reais, que mais eu gastaria? Afeto? E se ele realmente tivesse conserto? E se eu me apegasse no bicho? Meu pai odeia gato e eu nunca poderia ter um em casa. E se ele fosse de alguém? E se nem foi tão grave? Que isso, mó porrada seca, cara. Se fosse uma criança você não dormiria nunca mais.

E se for mesmo verdade aquela história das 7 vidas? Bobagem, não adianta buscar consolo em lenda urbana, seu feladaputa, cê matou o gatou em prestações, agora ele tá lá agonizando naquele frio da porra e você no quentinho, tomando guaraná Schin. Telefonema amigo, socorro. Do outro lado da linha me colocam com um protetor dos animais que fez isso recentemente, e a irmã veterinária usou toda a argumentação pró "levanta-sacode a poeira e dá a volta por cima" já utilizada nas linhas acima.

Desliguei e botei minha cabeça nesse mode: a culpa não é sua se ele optou deliberadamente por atravessar a rua naquele momento. O chalalá auto absolvidor foi aos poucos me convencendo. Realmente quem não devia estar na rua era ele, quem tem que zelar por si é ele. Gato não morre, gato vira pele de tamborim e churrasquinho ao mesmo tempo. Ele nem era preto mesmo, pode não ter 7 vidas, mas eu não terei 7 anos de azar. Etc...

Se funcionou? Aham, funcionou nada. Agora, quase 48 horas depois do incidente ainda me dói o coração de pensar o que foi e o que será do pobre felino.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Mais que um destino, uma experiência


Férias é um lance doido, né? A gente vai estranho e volta diferente. Meio que não tinha rumo, a coisa ficou assim-assim, e os bons ventos me levaram para um lugar que, benzadeus, me faz um bem danado. Eram só 10 dias, também não dá pra volta ao mundo nem nada disso. Purgatório da beleza e do caos, cantaria uma fraca cantora local. Diria um outro que por estar de frente pro mar, de costas pra favela, é tão facil falar de coisas tão belas. Morros e mar e prédios e um povo superficial, mas profundamente interessante. O carioca é fascinante e irritantemente informal, do jeito que eu, paulistano (mêu), insisto (em vão) em dizer que não queria ser. Confesso, já me chamaram de "carioca wannabe".

É escrechado, é preocupado com o corpo, mas isso o torna saudável. Pô, qualquer vovô de bengala ali no calçadão domingo parecia mais saudável que eu, no meu inicial bronzeado de metrô. Carioca consegue ser revoltado e acomodado na mesma frase, eu também seria se morasse num cartão postal. Nem vem, avenida Paulista não é cartão postal de verdade, por mais que eu ame aquilo lá. Tá bom, é sorte ter os Dois Irmãos, o Arpoador, a Pedra da Gávea, a Lagoa, o Corcovado, mas é um povo que aprendeu a ser feliz num cartão postal. Os desgraçados sabem rir de si mesmo e poderiam nos dar aula, são leves e quiçá um pouco levianos, mas descontraídos por natureza. É a falsidade e deboche personificado no conceito de "simpatia é quase amor". Every fucking carioca tem seu charme.

Passar uns dias lá me dá a impressão de que se quer morar lá pra sempre, mas nem sempre estamos de férias e quando estamos ali de férias é difícil esquecer disso. Imerso numa terceira dimensão do bem estar, de chinelo e bermuda, mate e biscoito na mão, pareço mais um grão de areia, que não poderia estar em outro lugar. Incontáveis vezes sentado no Arpoador me peguei pensando a mesma coisa e constato que o Rio não é uma viagem, mas uma experiência. Não se viaja para lá, lá você se transforma. É única cidade que você não descobre, mas é ela quem te descobre. E a conclusão é uma só: fui engolido pela informalidade em estado bruto do caos travestido de paraíso.