quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Produzindo

Tinha um cara olhando de rabo de olho. Ele viu você, eu e toda a maldade do mundo entrando naquele elevador. Cochilando na sua poltrona, com a câmera fazendo o trabalho dele. Os olhos fechados mas nem tanto, a borda de pizza fria no canto do prato. O entusiasmo com que a gente passou por ele deve ter contagiado por osmose o porteiro Hélio. Pilha daquele tesão que não cabe em palavras. Que preguiça de acordar amanhã, podíamos inventar uma desculpa daquelas tão esdrúxulas que até nós mesmo acreditaríamos. E perder tempo, ganhar tempo, perder tempo, ganhar. Porque coisas produtivas não têm necessariamente um produto final palpável. A ideia é outra, muito mais eficaz. Vamos produzir histórias e memórias. E o que mais tiver faltando.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Voo baixo e marginal

Olhando assim, sob essa luz de lua nebulosa e com as pistas livres me sinto num corredor de liberdade. Nem pareço estar no cerne de uma das maiores dores de cabeça do paulistano. Que vontade de sentar o pé nessa Marginal Pinheiros vazia, 2h47 de uma quarta-feira divertida na SP cinzenta. Mas o radar me impede, mas o crânio voa longe. Que bom é poder simplesmente ir, sem barreiras, pista livre estilo autódromo. Já quis ser piloto, mas hoje em dia uma madrugada numa marginal me basta. Tão belo que até as poucas moitas e palmeiras ganharam ares de floresta selvagem, apetitosas e fartas. Ilusão de ótica e de realidade, não é normal conseguir andar aqui. Minha cabeça voa mais que os 80 por hora no marcador. Não sei se é liberdade, nesse caos cinzento.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Doces mentiras

Gosto de mentira, não de mentir. Aquelas doces mentirinhas que você percebe sem perceber, as inofensivas. Talvez até defensivas, me protegem de mais sofrimento. Me engana que eu gosto quando eu não quero saber da verdade. Tem essa época pesada e eleitoreira da mentira. Dessas eu não gosto tanto assim, porque parecem inofensivas, mas paga-se por elas por pelo menos quatro anos.

Mas aqui entre nós, pode falar, aham, aham, sim, claro, acredito em você. Sem dúvidas, você tem razão. Eu sei que você tá falando sério, lógico. Você não teria porque mentir pra mim. Ah, tava com as amigas no shopping, claro. Eu tava jogando poker com os amigos, até um uisquinho eu tomei. Putz, não vai dar pra você vir? É aniversário da sua vó? Poxa, claro que eu entendo, meu, família é mó importante.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Um email, um sorriso

Conheci Jorge e Dulce em Florença (doce esquecimento, cara Dulce) em 2008, ficamos no mesmo albergue. Foi divertido, passeamos pela cidade, ficamos na fila do museu, pra cima e pra baixo. E me aproveitei deles pra furar alguma fila sim. Claro, essa é uma das vantagens de se ter amigos com mais de 70 anos. E a outra é receber um email desses de quando em vez.

Hola Felipe, mi hijo de Venecia, es una gran alegría saber de tí, siempre los cambios nos traen buenas nuevas afortunadamente tu trabajo te está gustando mucho, mira que nos encontramos muy felices, con el nieto, se está pareciendo mucho a mis Jorges, y tiene hasta hoy sus ojitos azules, como los abuelos los dos los tienen así. Recuerda que cuando vengas a México tienes a tus papás, que te esperamos con los brazos abiertos, cuenta con nosotros. te mandamos un fuerte abrazo. seguiremos en comunicación.

domingo, 12 de setembro de 2010

O que você tava fazendo hoje há 9 anos?

Hoje é 12 de setembro. O dia de ontem, há 9 anos, foi o mais marcante que minha geração já viveu. Inexplicavelmente todo mundo lembra onde estava e o que estava fazendo quando aconteceu aquilo tudo lá. Aquilo tudo lá mudou a história e acho mais emblemático do que o muro caindo em 1989. Aquilo lá deixou a todos com medo, gerou rumores, intrigas e muitas, mas muitas, teorias da conspiração. Mas será que você lembra o que estava fazendo no dia 12? Nem eu.

sábado, 28 de agosto de 2010

Despedida

Escrever email de despedida na firma não é tarefa fácil. Coisa engraçada escrever para pessoas que passaram um bom tempo contigo, mas que ao mesmo tempo passaram menos tempo de verdade com você. É um tempo esquisito. Te conhecem, mas não te conhecem. É um adeus, uma página virada. É parte de você tudo o que viveste ali. Você é tudo aquilo que foi ali e o que vai ser depois. E o email acaba curto, e as pessoas que respondem com um "não some" são as que vão saber menos de você, não porque você vai desaparecer num passe de mágica, mas porque elas não fazem questão mesmo. E é assim, e tá beleza. E respirar novos ventos é uma delícia. Quem nem se apaixonar, é bom quando dá aquele friozinhona barriga. E bora.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Sete vidas, assim espero

Daí que não que não tinha mais como frear. Era segurar o volante e fechar os olhos (no figurativo, claro). Se tentasse desviar capotaria o carro, fato. Com as pupilas mais arregaladas do que nunca parei uns 30 metros adiante e espiei no retrovisor. Lentamente vi o coitado do gato levantando e se arrastando até a guia. Outros carros esperavam já, não podia mais ficar parado. Respirei e segui adiante. Dali por diante meu culpômetro estorou o limite. E se eu tivesse parado, recolhido o gato e levado para o hospital veterinário? Além dos mil reais, que mais eu gastaria? Afeto? E se ele realmente tivesse conserto? E se eu me apegasse no bicho? Meu pai odeia gato e eu nunca poderia ter um em casa. E se ele fosse de alguém? E se nem foi tão grave? Que isso, mó porrada seca, cara. Se fosse uma criança você não dormiria nunca mais.

E se for mesmo verdade aquela história das 7 vidas? Bobagem, não adianta buscar consolo em lenda urbana, seu feladaputa, cê matou o gatou em prestações, agora ele tá lá agonizando naquele frio da porra e você no quentinho, tomando guaraná Schin. Telefonema amigo, socorro. Do outro lado da linha me colocam com um protetor dos animais que fez isso recentemente, e a irmã veterinária usou toda a argumentação pró "levanta-sacode a poeira e dá a volta por cima" já utilizada nas linhas acima.

Desliguei e botei minha cabeça nesse mode: a culpa não é sua se ele optou deliberadamente por atravessar a rua naquele momento. O chalalá auto absolvidor foi aos poucos me convencendo. Realmente quem não devia estar na rua era ele, quem tem que zelar por si é ele. Gato não morre, gato vira pele de tamborim e churrasquinho ao mesmo tempo. Ele nem era preto mesmo, pode não ter 7 vidas, mas eu não terei 7 anos de azar. Etc...

Se funcionou? Aham, funcionou nada. Agora, quase 48 horas depois do incidente ainda me dói o coração de pensar o que foi e o que será do pobre felino.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Mais que um destino, uma experiência


Férias é um lance doido, né? A gente vai estranho e volta diferente. Meio que não tinha rumo, a coisa ficou assim-assim, e os bons ventos me levaram para um lugar que, benzadeus, me faz um bem danado. Eram só 10 dias, também não dá pra volta ao mundo nem nada disso. Purgatório da beleza e do caos, cantaria uma fraca cantora local. Diria um outro que por estar de frente pro mar, de costas pra favela, é tão facil falar de coisas tão belas. Morros e mar e prédios e um povo superficial, mas profundamente interessante. O carioca é fascinante e irritantemente informal, do jeito que eu, paulistano (mêu), insisto (em vão) em dizer que não queria ser. Confesso, já me chamaram de "carioca wannabe".

É escrechado, é preocupado com o corpo, mas isso o torna saudável. Pô, qualquer vovô de bengala ali no calçadão domingo parecia mais saudável que eu, no meu inicial bronzeado de metrô. Carioca consegue ser revoltado e acomodado na mesma frase, eu também seria se morasse num cartão postal. Nem vem, avenida Paulista não é cartão postal de verdade, por mais que eu ame aquilo lá. Tá bom, é sorte ter os Dois Irmãos, o Arpoador, a Pedra da Gávea, a Lagoa, o Corcovado, mas é um povo que aprendeu a ser feliz num cartão postal. Os desgraçados sabem rir de si mesmo e poderiam nos dar aula, são leves e quiçá um pouco levianos, mas descontraídos por natureza. É a falsidade e deboche personificado no conceito de "simpatia é quase amor". Every fucking carioca tem seu charme.

Passar uns dias lá me dá a impressão de que se quer morar lá pra sempre, mas nem sempre estamos de férias e quando estamos ali de férias é difícil esquecer disso. Imerso numa terceira dimensão do bem estar, de chinelo e bermuda, mate e biscoito na mão, pareço mais um grão de areia, que não poderia estar em outro lugar. Incontáveis vezes sentado no Arpoador me peguei pensando a mesma coisa e constato que o Rio não é uma viagem, mas uma experiência. Não se viaja para lá, lá você se transforma. É única cidade que você não descobre, mas é ela quem te descobre. E a conclusão é uma só: fui engolido pela informalidade em estado bruto do caos travestido de paraíso.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

O que era aquilo?

Nem tinha pra ninguém lá não. Pra tudo quanto era lado que se olhava era aquele negócio de doer os olhos de tão harmonioso, cada imperfeição milimétricamente no lugar. Uma beleza que enchia seu esquecimento mais profundo, seu vacilo, seu erro. Ela estava no salão todo, chefia. Sua imperfeição perfeita refletia nas pupilas de cada criatura incrédula com aquela sacanagem de Deus. Desfilava sua retumbância na pista, pretendendo ser discreta. Olhando e, mais que tudo, sendo olhada. Risada maquiada no canto da boca, fingia a normalidade, que se esvaia quando o cheiro dela passava por nós. Contando nem eu acredito.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

O fim se anuncia, Josefa

Josefa, hoje não vou dormir. Não me acorde antes da hora de estar atrasado amanhã. Josefa, me deixa ser feliz por uma noite e me levar pelo frio das horas que se aproximam. Tenho preguiça de ter preguiça com a temperatura que despenca. A preguiça e a vontade de se recolher são óbvias, minha nega, e eu adoro o complicado. Quem sabe você sinta isso nas vezes em que vai escolher um tomate na feira e, apesar de achar bons tomates, ainda fica procurando por um melhor. O melhor que não se sabe, que não dá pra explicar. O melhor pra mim essa noite, Josefa, nem eu sei. Nem eu, nem a noite.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Íntimo e impessoal

Sabe quando você esquece o nome daquela pessoa que você precisa chamar? Às vezes você nunca soube, mas fica chato chamar de "Ô", meio mal educado. Para isso os povos inventaram os pronomes de improviso que chegam até a parecer carinhosos sem parecerem vulgares. Eu particularmente odeio o "querid(ã)o", porque se o cara me quer já não tá bacana a coisa, saca?

Vamos a uma lista chula e de bate pronto.
- chefe
- chefia
- parceiro
- cumpadi
- meu
- amigo
- amigão
- querido
- queridão
- lindão
- meu camarada
- brother
- tio

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Verbos


Soltando os verbos. Alguns bons.

Ver, ser, ler, escutar, fazer, resolver, pensar, sonhar, escrever, perdoar, perder, aprender, entender, explicar, doar, degustar, caminhar, voar, gargalhar, beber, apalpar, viajar, cafunezar, perguntar, responder, apreciar, solidarizar, lembrar, amar, respeitar, improvisar, celebrar, meditar, assistir, surfar, viver.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Flutuar

Nega, quanta coisa na mente. To louco pra assistir o jogo do chucrute contra a paella. Não queria que a copa acabasse. Muito bom ficar nesse semi carnaval durante um mes, este estado de alfa, semi anestesia generalizada na população todinha. Gostoso sentir essa euforia com a coisa mais importante dentre as menos importantes. Nesse momento ela vira a mais importante das coisas e no fim já pouco importa quem ganhou quem perdeu. As emoções, já diria Robertão, o sábio caboclo, essas sim são importantes de serem vividas e lembradas como merecem. O abraço que demos na copa de 2002 e meu pai chorando em 94, acha que eu esqueço? Gritando na rua, ali na Faria Lima, pegando busão pra casa da tia, doido, anestesiado, flutuando. Queria estar daquele jeito agora. Como diria uma frase de um muro da vida: "queria ser o que eu era quando queria ser o que sou agora".

terça-feira, 6 de julho de 2010

Um pouco delas

A indecifrável mensagem nos olhos daquelas todas que você não saca qual é a dela de primeira. Nem de segunda. Que fazem sentido sem ser nenhum um pouco claras. Do tipo que pode pentear o cabelo a tarde toda que não fica mais linda do que quando está despenteada. E as que pegam na mão enquanto beijam e as que não pegam na mão enquanto beijam. Que brincam de sumir por algum tempo no fundo esperando que você suma mais que elas, mas que sempre saiba a hora certa de aparecer. A hora certa pra elas, claro. Seus humores previsíveis como o tempo no verão: só se sabe que vai chover. Quando, não importa. Desejos e segredos improváveis e impublicáveis que adoramos descobrir, e mais ainda, não saber. Quanto mais se sabe sobre elas mais se sabe que pouco sabe sobre elas. Saber que quanto mais mar se navega, mais mar se tem para navegar. E como é bom se declarar marinheiro sem porto, à espera daquilo tudo que espera o tempo certo sem ser nenhum um pouco previsível.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

A cagada de Sergio

Acordou naquela manhã e viu que não tinha feito direito. Que nada do que pensava ter completado estava no lugar, não resistiria a uma pergunta mais bem colocada do chefe. Parecia feito para dar errado. Sergio fez o raciocínio errado, projeto errado, execução então, vixe. Para quem iria a culpa, já que toda a culpa era dele e só dele?

Como é que um cagão que nem eu vai explicar uma merda duma ideia dessa? - pensou alto pela rua de dúvidas. Pedir ajuda, pra quem? Não, o Jonas da Coordenação, não. Nossa, muito menos para a Ju do Institucional. Quem sabe o Torres, aquele baixinho com tique lá da Supervisão 2 pode dar um tapa até o final da manhã e me ajudar a entregar uma... merda menos fedida, digamos assim. Até aqui não parei de pensar em voz alta, cansei de ser olhado de fora.

Vamo mudar essa visão. Sou o Sergio, levei com a barriga, fiz cagada, não cumpri com minha responsa e agora quero empurrar a merda pra alguém. É, tô legal de tomar come de chefe corno e sem moral. Era um projeto medíocre e tosco que ninguém ali faria melhor. Então lá fui eu levar com o pé nas costas sabendo no fundo que não ia dar em nada.

Mas pego na surpresa fui quando me avisaram que não daria para resolver a bosta que eu tinha feito e muito menos deixar bonito para os acionistas verem. Ia voar dejetos em todas filiais. Não teve relatório, protocolo, ameaça que fizesse aquilo se organizar. Estava fadado ao fracasso. A apresentação era às 9 em ponto, e o diretor da bagaça gostava de ficar ali na porta do elevador gritando com quem atrasasse um minuto.

Cheguei sete minutos atrasado, esbaforido, pizza debaixo do braço. Chacota. Peguei elevador, ouvi gritos ao fundo, me apressei. Subi, sala de reunião. Pen drive no data show, ô power point lento da porra, não entra. Vai, abre logo. Pronto, abriu. O crápula estava entrando na sala e eu ia apresentar aquela merda, aquela bela merda, devo acrescentar. Nem um moleque da UNIP faria uma daquelas, Sergio, como você é cabaço. Ele pegou um café, puxou a cadeira, olhou pra minha cara com cara de quem vai tirar sangue, pro telão com cara de deboche. Abriram a porta, era uma secretária:
- Pessoal, jogaram um avião nas torres gêmeas.

Sergio, no caso eu, nem sabia quem era Bin Laden, mas já agradecia a ele.

terça-feira, 29 de junho de 2010

Catarse coletiva

Parecia que todo mundo ali naquele metrô iria perder um avião, que tavam correndo desperadamente ao aeroporto no último minuto, que já tinham se passado 10 minutos da última chamada para o vôo XX 69 171. Correria demente, faltava 1h30 pro jogo ainda. Quando faltava só meia hora todos pareciam que iriam matar um. Bar, amigos, só os amigos dos amigos, pouca gente, muita cerveja e coxinha. Surdo, pandeiro, repique e corneta, aka vuvuzela. Orquestra disso tudo, organizada, nego era bom, tinha ritmo e tudo, e olha que eu ainda não tinha tomado. Xingar Galvão, zoar o Arnaldo, fazer piada com o juiz e o amigo careca, tudo ali. Tensão, uhhhs, ahhhhs, viiiixes. Tudo explodindo, tudo nervos, mas impressionantemente organizado. Bola na trave, breja quase no chão. Unhas, cutículas, braço da amiga, tudo é bolinha anti-stress. Rir, de galera esse é o melhor remédio, que dúvida. De repente, a bola tá lá dentro. Grito. Abraça até os amigos dos amigos dos amigos. Já que é só a cada quatro anos que se tem essa intimidade, bora aproveitar. E se sentir estranhamente querido, aceito e brasileiro.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

À vontade

Tenho pressa. Estão me esperando ali n'algum lugar em que ninguém espera nada, onde se vive e só. Ali, em algum canto em que ninguém grita, só se sussurra e canta. Lá, sim, lá mesmo onde esquecemos nossa última gentileza. Onde quem tem muito tem igual a quem não tem. Onde um sorriso é moeda de troca, e como rola comércio. Naquelas banda não precisa saber dançar nem fazer pose; se joga, ninguém tá filmando, pode perder a linha. Não tem aparência, é tudo ao avesso, te vejo do dentro pra fora e você também. Não te devo nada nem você me deve. Seu único dever é não ser o que não é. Pode ser piada, revolta, entusiasmo, sinceridade, paixão ou vontade. Fique à vontade, porque ela fica com você.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

O prato, a chave

Deliciosa aquela torta, me lembro. Da textura, dos farelos, era sua especialidade. O recheio, o creme, a aparência maravilhosa. Quando chegava à mesa todo mundo salivava. Mas não me lembro o sabor, não. Se era doce ou salgada, ácida ou não. Me lembro da presença dela no imaginário de todos. A torta da tia, que ela fazia de vez em quando, quando alguém fechava uma rotação do sol. Que era um evento, que conseguia atrair até o menos apegado dos primos, dos cunhados, dos irmãos. Arrastava os estômagos até o bairro que fosse, na casa de quem fosse, fizesse o frio que fosse. Falar com ela sobre a receita era quase como falar da adoção de uns primos, beirava um tabu religioso, ninguém se atrevia. E a novidade, chefia, qual é? Que tocou o telefone e era a tia, resmungando sua velhice e dores, convidando para aprender dia desses o seu segredo maior. Frisei a ela que sou jornalista e não tenho vocação para líder gastrnômico, se bem que poder comandar uma horda de gulosos pode me ensinar muito sobre manipulação. Nossa, poder alucinar neguinho com minha comida, fazer fortuna, virar Jamie Oliver e deixar de ser caça. Hum, tia, vou aí comer a divindade para poder pensar melhor.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Hoje eu acordei feliz.

Mal respirei, entre um gole e outro de cerveja. Um grito e outro de raiva. Um sorriso e outro, uma piada e outra. Sem Galvão para xingar, tinha um cara sem sal do Sportv, foco no jogo. Esparramado no pufe, risada, risadas. Grita, pô, seleção é tradição. Pintura modernista do primeiro gol, passe incrível do Ricardo. E depois, uma obra impressionista de Luis Fabimano (de Diós), inspirado em Monet e Pelé, conectados por algo mais que uma rima. Chapéu em cima daqueles monstros é coisa de moleque folgado. Que bom. Se esse é o tal ópio do povo, confesso que ontem fiquei doidão. E hoje eu acordei feliz.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Tudo pessimista

Não ganhamos de lavada. Não foi um jogaço. E ninguém tá entusiasmado com o Dunga, a não ser ele mesmo. Mas também não foi uma tragédia. Não deixamos de ganhar os três pontos. E fizemos jus às nossas estréias nervosas e com placar magro, vide último post do Búfalo Filhote. Não dá pra ter certeza de nada nessa copa até agora, a não ser que Maradona será a maior estrela. Que Alemanha, Espanha, França e Inglaterra tiveram performances piores que a nossa, de longe. Mandela não foi à festa, por motivo nobre, convenhamos. Os bafana-bafana não abafaram a expectativa e dançaram, assim como a Nigéria, que com dois tropeços deixa sua vaga para Coréia do Sul ou Grécia, ultimamente conhecida como "o cunhado do mundo". Eslovênia detonando no Grupo dos EUA e da Inglaterra. Tô torcendo, viraram xodós. Quero ver na segunda no que estarei pensando.

terça-feira, 15 de junho de 2010

Silêncio remédio


Muito silêncio por aqui. E o silêncio nunca vem só, traz pensamento embutido. Tenha certeza, nobre leitor, de que pensei em muita coisa nesses tempos e que nem de longe aposentar esse blog passou pela minha cabeça, deixar morrer só a chatice. Não dá, é automático, de vez em quando preciso espirrar por aqui e ser feliz. Não que não estivesse sendo esses dias, mas tava preocupado demais sendo eu mesmo. Sendo feliz de verdade, longe do mouse e do teclado, muito embora vendo eles quase que diariamente. A rotina é só ela, normal. Ver além do normal é privilégio que me foi dado não sei como e não sei por que. Mas não faz tempo e parece que uma estúpida clareza me tem arregalado os olhos ultimamente. Tem sido bom, espero que dure.

Silêncio é paz, respiro. Intervalo é melhor que pressa, que “pra ontem”. Silêncio é remédio, trabalha incansável para curar feridas, sanar dores. Adoro seguir lentamente apressado nesse mundo em que tudo já nasce velho. Me sinto novo a cada dia que se acaba de velho. Que os gritos das cornetas acordem de novo essa página, que voe aos ventos, que sacoleje ao som dos tambores desse tsunami que a cada quatro anos chacoalha essa terra. Férias ao silêncio porque ele tá precisando!

quinta-feira, 27 de maio de 2010

As melhores coisas da vida?

Vi parte da minha vida passar na minha frente. Não, não foi cena do último salto, de uma pane de paraquedas, de um quase atropelamento ou colisão de carro. Foi cinema mesmo. Não, ainda não tive minha biografia adaptada para as telonas. Nem daria muita coisa, devo admitir. Vi tudo isso apenas olhando para um lugar, um cenário de filme.


Um lugar é muito mais do que o lugar em si. Quem já viu em fotos, no cinema ou na tevê lugares em que já esteve acaba voltando para lá. E a memória não traz apenas espaços, prédios, janelas, monumentos e cores. Carrega consigo cheiros, sons, ruídos, texturas, emoções não quantificáveis. À princípio, o que me levou a ver o filme As Melhores Coisas do Mundo, de Laís Bodanzky, foi o fato de ter conversado com ela ano passado e também de gostar muito de Bicho de Sete Cabeças (2001).


Mas o que me prendeu ao filme foi a locação, supreendentemente era a escola onde estudei dos 11 aos 19 anos. Coincidência ou empatia, ou as duas coisas, me vi ali naqueles corredores, quadras, pátios, biblioteca e até a sala dos professores, onde tomei broncas e puxões de orelha homéricos. Cada canto, cada curva, banheiro, armários e murais, tudo era mais que um cenário de cinema pra mim, era minha vida.


Os personagens, sim, algumas associações. Alguns me lembram algumas pessoas, adolescência, professores, gente bacana, ou trouxa. Ou eu mesmo. Nunca tinha sentido isso, mas me vi na tela, não no personagem principal, mas no todo, no conflito, no drama, no espaço. Mergulhei talvez nas minhas memórias mais inconscientes, no que me formou como pessoa, nos meus pilares. Meditei bastante a respeito depois do filme e quem sabe a única conclusão seja de que um lugar pode significar bem mais do que parece.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Ah, aquele cheiro

De gasolina.
De pão de queijo saindo do forno.
De jasmim roubado no arbusto logo ali.
Dos metrôs novos.
De amor.
De vinho bom.
De sabonete de erva doce.
De parmesão torrado.
De feijoada num sábado sem mais nada à tarde.
Da Marginal quando você chega pela Ayrton Senna.
Das bancas da Doutor Arnaldo.
De adesivo recém impresso.
De vento.
De céu azul em Boituva.
De Ibirapuera amanhecendo.
De pipoca só com sal.
De limão espremido na lula à dorê.
De café na cama.
De preguiça com cerveja e risada.
Seu.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Aquele lugar

Tem cheiro de erva doce, um perfuminho familiar. Em todo canto tem objetos que são como cartões de embarque para decolagens da memória. Tudo que de alguma forma fez parte de mim está ali, ou pelo menos parte de tudo. Aquele lugar me conhece como ninguém, me sinto netinho correndo em casa de vó. Mas a dona não é matriarca, é a vida. A vida que me fez voltar para lá com aqueles olhos, com os sentidos aguçados. Sempre piso ali, mas não como dessa vez. Chovia, cheirava, plantinhas de muitos odores. Cachorra histérica, agitada, antagonizava com a disritmia do meu respirar. Que moleza que me possuía quando acordei daquela siesta. Colchão de nuvem, voei por mares de descanso e de leveza. Aquele sábado poderia durar pra sempre, até porque a noite não terminou bem. Conforto é o carinho que um ambiente nos dá, e ali as paredes parecem fazer cafuné. Na marcha lenta, o sono da semana acumulado, a vontade de curtir o sábado irritando o anjinho que só queria a horizontal e tchau. Banho potente, a água caía dilacerando as células recém despertadas, desconforto. Mas o calor, o vapor, transformariam toda dor em conforto e tranquilidade. Não me tire deste banho nunca, não quero girar a torneira em sentido horário. Deixar a água escorrer é estilingar problemas, mau olhado. Bungy jump sem volta de energia inservível, sai coisa ruim. Massagem capilar de um netuno encanado, saudades do velho lar. Mais de um ano sem ver o mar, acredite. O Pacífico não conta, é sacanagem. O Atlântico é mais que pacífico para mim, aprendi a me acalmar ali, a deslizar ali, a tomar caldo e a respeitar o oceano ali. Ainda volto pra lá, com certeza eu volto pra lá. Naquele lugar, onde eu quiser.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

A culpa é de todos nós

Dia desses eu tive o prazer de perguntar para um General do Exército Brasileiro a opinião dele sobre essa letra. E a resposta dele foi ótima:
- Todos nós temos culpa.

Hein?


Aluga-se

Raul Seixas

A solução pro nosso povo

Eu vou dar,
Negócio bom assim
Ninguém nunca viu
Tá tudo pronto aqui
É só vim pegar
A solução é alugar o Brasil!...

Nós não vamo paga nada
Nós não vamo paga nada
É tudo free!
Tá na hora agora é free
Vamo embora
Dá lugar pros gringo entrar
Esse imóvel tá prá alugar
Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah!...

Os estrangeiros
Eu sei que eles vão gostar
Tem o Atlântico
Tem vista pro mar
A Amazônia
É o jardim do quintal
E o dólar dele
Paga o nosso mingau...

Nós não vamo paga nada
Nós não vamo paga nada
É tudo free!
Tá na hora agora é free
Vamo embora
Dá lugar pros gringo entrar
Pois esse imóvel está prá alugar