quarta-feira, 13 de abril de 2011

Cortiça em branco

Não tem nada mais em branco do que meu mural. Vazio, cheio de liberdade para tudo o que eu quiser afichar nele. Na verdade não está em branco porque não é o mural do facebook. Não que eu tenha uma vida social que seja tudo isso, mas ele não está em branco porque é de cortiça, old school mesmo, com tachinhas, boa parte delas coloridas e gastas. O antigo mural se dissolveu, estava muito parado, há muitos anos. Mudou de lugar, ganhou parede e vida nova. Renasceu.

Sei lá se eu faço um mural caprichado ou se ele vai refletir meu compasso do dia a dia, com intensidade, mas sem muitos retoques. Sendo assim, não haverá muitos esmeros e milongas. Mural com pouca coisa é mais feio do que vazio, dá a impressão de que o dono tem pouca coisa em mente. Não sei que foto colocar, ou bilhete, ou ingressos de show, exposição ou cinema.

Quem sabe o do último filme que assisti no Belas Artes, ou então do Cidade de Deus. A surrada entrada do Rock in Rio de 2001 ou a do inesquecível AC/DC em 2009? Do Paul? Do Rage? Fotos de alguma paisagem? Daquela menina bonita? De momentos que me são gratos? Ou se deixo assim vazio, como a tela irritantemente em branco que vi e achincalhei numa Bienal anos atrás. Quem sabe não seja o mural das minhas próprias mudanças?

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Além da vida


A tragédia virou História, que virou livro(s), que virou inspiração para diversos filmes. A queda do avião da Força Aérea Uruguaia nos Andes chilenos, em outubro de 1972, com 49 civis a bordo ficou marcada como uma das histórias de sobrevivência mais épicas da história. Se não a mais marcante, com certeza a mais polêmica, já que os 16 sobreviventes chegaram vivos ao cabo de 72 apenas comendo restos dos companheiros mortos.

Não é um livro que conta aquele canibalismo triste, dolorido, e imprescindível para seguir resistindo. Aborda a relação entre vida e morte com coragem, pois esta é fruto da sinceridade e transparência pois A Sociedade da Neve foi o primeiro livro com depoimentos escritos por cada um dos homens que voltaram para esta sociedade aqui. Esta sociedade confortável, que vai entrar no seu carro e ligar o ar condicionado, ou então a calefação com a temperatura despencar um pouco.

Passar noites a -30°C por mais de dois meses num abrigo precário feito com os restos da fuselagem, não ter nenhuma possibilidade de se alimentar com nada que não seja carne de cadáveres, enfrentar sem nenhuma estrutura fraturas e outros graves ferimentos. Essas foram algumas das encrencas que os homens lá em cima tiveram de lidar, e fica claro logo nas primeiras páginas que comer carne dos companheiros é algo com que lidavam naturalmente e até em tom de heroísmo, por dar ao morto o poder sem preço de perpetuar a vida dos companheiros.

Não penso que faria diferente, talvez sequer sobreviveria. Mas a obra trata de entender por diversos ângulos o que estar vivo e o que é estar morto, já que os 29 passageiros que inicialmente sobreviveram à queda foram dados como mortos cerca de 5 dias depois do acidente.

A Sociedade é uma explicação de como laços sólidos são formados, como se cria um apego fora do normal com pessoas que nunca se tinha visto. Como a vida do seu companheiro se torna inexplicavelmente mais importante que a sua e que essa troca mútua permite, de forma muitas vezes surrealista, que um não perca a esperança em ver o outro vivo e voltando aos braços da família. Faz ver sentido onde não tinha nada.

Livro bom pra chorar, e principalmente, excelente para sorrir.

segunda-feira, 21 de março de 2011

Improdução

Hoje não fiz nada mais que o necessário para não ter que fazer nada de mais.
Mais que nada, fiz o básico para não fazer mais do que o necessário.
Depois, listei o necessário, para que fosse feito o mais devagar possível.
Necessariamente perdi tempo, mas não necessitei de ajuda.
Sei ser desnecessário sozinho, desnecessistar de uma mão.
E necessito de ideias e de palavras, até o momento,
Ainda bem,
Em que se tornam desnecessárias.

domingo, 20 de março de 2011

Desorganizando eu posso me organizar

Encontrei com o que eu era ontem. E anteontem, há muitos anos, e sempre. Dei de cara comigo mesmo naquele monte de coisas que acumulei por toda a vida. Não mexia naqueles armários e gavetas ha uns 15 anos, retirei 5 sacos de 100 litros no total, 3 foram para o lixo, 2 para doação. Carrinhos, suvenirs, fotos, livros, diários de viagem, bilhetes e outras milongas. E foi vindo coisa, lembrança.


Veio cartão de visita de político picareta, broche de NY, camiseta da sexta série assinada (com xingamentos e tudo!), pilha velha. Roupinha de quando eu era bebê, faca de mergulho, livro de auto ajuda, disco de hockey. Ou quem diria que eu reveria aquele pingente que eu ganhei de alguém que foi importante? Um rótulo de cerveja que lembra uma noite incrível, um livrinho de piadas do Ary Toledo. Miniaturas de torres, Eiffel e Pisa.


Mini coleção de foto 3x4 de gente que eu não faço nem ideia do que está fazendo da vida. Mas que foi especial. Letras de música que eu copiei, letras de música que eu inventei, letras de música que eu rasguei, mas não tive coragem de jogar fora. Estojo de aquarela, manuais de instrução, credenciais esquecidas de eventos inesquecíveis.


Carteirinha de estudante/passe de ônibus de 2002, e a de 1998 e a de 1999 também. Apostila de cursos de formação em esportes perigosos, livro com foto de todos do colégio, caneca com a Union Jack que eu não faço a menor ideia de como veio parar aqui.


Disquetes com toda minha (pouca) produção intelecutal até 2005. Radiografias, bolos delas, não sei como posso ter quebrado tanto osso. National Geographics antigas e lindas, colares e pedrinhas que ganhei de presente. Playboy da Feiticeira autografada.


Apareceu Nevermind do Nirvana, em k7, comprada no Hotel Taj Mahal em Mumbai (aquele que em 2008 foi invadido por atiradores, lembra?). Achei também muita coisa que não faz mais parte de mim. E só guardei o que valerá a pena lembrar na próxima arrumação.

terça-feira, 15 de março de 2011

Desconcertando-se

Fazer um filme sobre frustração sem ser triste e tratar o arrependimento sem colocar o roteiro todo na fossa. Tarefa difícil, quiçá inusitada. E um roteiro sobre música clássica tenderia ainda mais a cair pelo caminho dos violinos chorosos. O Concerto conseguiu tocar em tudo isso, só que indo no contra tempo dessa métrica melancólica.


Um maestro, o mais genial deles, foi afastado de suas funções e trabalha como faxineiro do teatro Bolshoi de Moscou. Mas a música, especialmente a obra de Tchaikovsky o persegue, desde quando há 30 anos ele foi impedido de reger a orquestra no meio de um concerto por ter integrantes judeus, perseguidos pelo partido comunista.


Ao final de um triste dia de trabalho pesado, um fax endereçado ao atual diretor do Bolshoi é interceptado pelo ex-maestro antes de chegar ao seu destinatário. Um convite para se apresentar no esplêndido Teatro Chatelêt, em Paris. E num estalo ele resolve reunir seus componentes de três décadas atrás e levar 53 músicos substitutos para concretizar o tão sonhado concerto. E a graça começa ao tentar reunir os ex-colegas, espalhados em profissões esdrúxulas como chefe de tribo cigana motorista de ambulância e vigia de museu. E vai temperado com vodka, desencontros e presepadas.


Mesmo com ares de roteiro Hollywood ‘B’, o filme francês empolga, diverte e até faz pensar, mostrando como um roteiro bem feitinho pode fazer umas horinhas no cinema valerem a pena. E tudo isso embalado por uma trilha de Tchaikovsky, montagem competente e a beleza deslumbrante de Mélanie Laurent (a Shoshana de Bastardos Inglórios), é garantido que você não vai perder seu tempo. E ainda periga de sair chorando do cinema. Ou, no mínimo, arrepiado.

domingo, 13 de março de 2011

Coisa séria

Carnavalizar é perder a preguiça de aceitar a ordem das coisas. Entender que cada coisa tem seu ciclo e que não há mal nenhum em colocar cada um deles em prática. Quem não pensou em fazer jamais pode ter deixado uma ideia guardada. Quem não guarda ideias não guarda vontades. Como por exemplo, vontade de ser um pouco diferente do que se deve ser de segunda a segunda, o ano todo, na rotina do dia de branco.

Se eu caio no suíngue é pra me consolar. Pode parecer bagunça para você, mas para mim carnaval é uma das épocas mais sérias do ano. Não, não organizo bloco nem tampouco tenho responsabilidades como carnavalesco de escola alguma. Não fico de plantão (pelo menos não dessa vez) e não acompanho ponto a ponto a apuração.

A seriedade está na tomada de consciência do momento que ele representa no contexto do ano. É olhando de longe, vendo aqueles ínfinmos 5 dias em meio aos 365 que percebo o quanto são preciosos. O quanto não são comuns e o quanto podemos (e devemos, na minha modesta opinião, usufruir). Quando mais no ano é tão permitido permitir?

Não se trata de sair se jogando em quaisquer braços, embora isso seja demasiadamente aceito e encorajado. Nem mesmo de embriagar-se como se não houvesse amanhã - porque daí você vai lembrar do quê?. Quem sabe seja sobre festejar uma catarse, um transe coletivo de desejo de bem estar mútuo, ainda que efêmero. Talvez seja sobre ser feliz, sobre possibilidades, sobre entender liberdades, sobre escolher liberdades. Sobre ser livre, ainda que de mãos dadas com alguém ou com a cabeça em alguém, não importa.

O que importa é que não pode ser normal. Não pode ser mais um feriado. Em qualquer outro país até poderia, aqui não. Nosso País tem isso no DNA, tudo bem que não é todo mundo que sabe que tem, mas qualquer um pode querer encontrar. Quando a pessoa consegue perceber a graça da fantasia, do deboche, da brincadeira, ela se medica, se cuida, se trata, trata bem a si e ao anônimo ao lado. E se faz dona de si, das ruas, e do mundo.

*Muito, mas muito obrigado mesmo a todos que pisaram naquele Rio de Janeiro e, sem saber, fizeram com bom humor, malícia, respeito, molejo e paz, o melhor carnaval da minha vida.

quarta-feira, 2 de março de 2011

Ensaio geral










Cenas do ensaio técnico da Imperador do Ipiranga e Gaviões da Fiel.
Sambódromo do Anhembi, São Paulo.
Fevereiro 2011
Fotos: Felipe Mortara

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Segunda à segunda

Querem respostas, querem clareza. Esperam mais do que um 'é, é isso mesmo'. Não conseguem todo dia declarações bombásticas, nem furos de reportagem, muito menos algo que mude a vida de alguém. É glamuroso? É sim, vó. Para quem tá de fora. No dia a dia, na rotina, na orelha suada de tanto ficar pendurada ao telefone, nos dedos que doem no final do dia, nos garranchos que precisa-se decifrar no bloquinho, a coisa é labuta como qualquer outra. Dizem que não paga bem, mas nem todo reconhecimento vem com depósitos em conta bancária. Há satisfações que não são pagas em dinheiro. Um sorriso, uma descoberta, um furo, o nome impresso ali, uma história, um flagrante, uma fofoca, um fato. Aliás, acho que esse texto só começou para concluir que ser jornalista é bom, de fato.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Nobre irmão

Precisava deixar registrado isso, mesmo que com uma semana de atraso. Para eu não esquecer, para ele não esquecer.

Moleque, eu lembro como se fosse ontem o dia em que eu fui às 6hs da manhã diante daquele portão meio sombrio na Vila Mariana. Já faz tempo, agora chegou tua vez. Pois é, coisa de todo homem, dever com a pátria, é dever cívico, é um blablablá dos infernos. Mas faz parte, encare como um ritual de passagem. Espero que sejas dispensado logo, que não tenha a má sorte que teve seu irmão de ir até a última chamada e ser dispensado já com colegas tirando medidas para o uniforme e a boina na salinha ao lado. Que sua experiência militar seja de alguma forma enriquecedora e que sirva para algo mais do que matar algumas horinhas de aula, e de sono, em madrugadas difíceis de acordar.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Piloto de espetos

Na média todo mundo gosta de mal passada. E todo mundo quer dar pitaco. Joga o carvão antes, joga por cima, não, por baixo, isso, o álcool, não, tudo isso não, sim, pode pôr mais. Meio terapeuta, meio ditador, eis o dilema de quem está pilotando uma churrasqueira. Ainda mais para mais de 60 pessoas. Um brinde aos vegetarianos que poupam algum trabalho, uma vaia àqueles que vêm cobrar abobrinhas e cebolas assadas como se fossem obrigação. Pô, quer verdura vai no Ceasa. Pra quem não come carne tem cerveja. Aliás, acho que já disse aqui que churrasco sem carne acontece, mas churrasco sem cerveja simplesmente não há. Suco de cevada fermentado é óleo na engrenagem do churrasco, e também nas mãos e na garganta no churrasqueiro. Sem fazer força seu canto é tão concorrido quanto a cabine de um DJ na balada, especialmente se por alguma razão (fome) as pessoas tiverem motivos para não sair dali (linguiça, picanha, bisteca, franguinho, etc...). Exerce papel de rei travestido de plebeu, sempre suado, sujo. A diferença dele pra banda é que se a banda para, todo mundo percebe imediatamente. Já o piloto de grelha só tem sua ausência sentida na hora que a barriga ronca. Em geral não tem reconhecimento, mas tem moral. Não pega ninguém, mas come o quanto quer. Tipo aquele motorista da rodada, que supostamente não bebe, mas no fundo, bem lá no fundão do churrasco, se diverte.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Cheiros

Eu nunca tinha acordado de manhã e recolhido merda. Jamais tinha sido despertado por latidos vindos da sala. Ou trocado fraldas cheias de xixi antes de eu mesmo fazer xixi. Nem sequer tinha alimentado alguma coisa logo cedo antes de mim mesmo. Nem brincado de pega-pega com um espanador às 2 da manhã. Nem parado o que eu estou fazendo porque naquele momento ele poderia estar fazendo o que deveria fora do lugar em que deveria. Não é legal, mas é diferente.

Essa criatura aí de cima não apenas divide o mesmo teto que nós há três meses como mudou a nossa vida há três meses. Não porque seja fofo, simpático ou ingênuo, mas porque é tudo isso e um pouco mais. Um cachorro muda a vida de uma casa.
Muda a casa.

domingo, 16 de janeiro de 2011

Passou

Começou o ano, mas não começou. Não estou entendêindo nada. Assim, desse jeito mesmo, com sotaque bem paulistano, do mais forte, que eu descobri ter mega carregado em 2010. Aliás em 2010 eu descobri um punhado de coisas que eu nem sabia. Que gosto de morango, que sei fingir que sei jogar sinuca, que imito Silvio Santos - ao que tudo indica - com alguma graça, que engano em portuñol, inclusive enrolando um peruano de que eu era seu conterrâneo. Posso passar dois dias sem dormir e parecer bem humorado. Te ligar de madrugada para contar que vi alguém que não tem a menor relevância para você. Escrever numa página da agenda as melhores pérolas dos meus amigos e colegas. Ler O Pequeno Príncipe e comentar com pessoas que jamais diriam que leram. Nadar por entre plânctons e fingir que sei explicar o que são os plânctons sem citar Jorge Ben e fazer até mesmo amigos inteligentes comprarem o barulho. Desfilar e rebaixar escola de samba em ótima companhia. Ver o melhor show da minha vida sem saber naquele momento que era o melhor show da minha vida. Ir a um lugar com 50 mil pessoas onde eu poderia encontrar todo mundo e não achar ninguém quase. Comprar uma bicicleta e poucas horas passar sobre ela. Que sei administrar minha casa, ainda que male-male, após 5 meses de ausência da chefia. Ter tesão em ser um servidor público, perceber que tinha alguns pequenos poderes que melhoravam, de fato, a vida das pessoas. Achar um trabalho em que sinto o maior prazer dar o máximo de mim o tempo todo, e de ter uma vontade que andava escondida de aprender, e aprender, e aprender. Sentir e participar da adrenalina de um fechamento de jornal, ver um furo nascer e acontecer e mudar a vida das pessoas. Perceber que me sinto, sim, mais sério a cada dia, mas que luto sem esforço para não deixar morrer esse moleque que mora dentro de mim.
Oba, já é 2011.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Natal diferente

Duas opções me restaram ao final desta semana. A primeira: fingir que estava tudo maravilhosamente bem, eu acreditar ingenuamente que todas as feridas já se haviam fechado e que não estava mais transmitindo a maledeta catapora. E ir para os natais paterno e materno numa boa, de cara lavada, simplesmente botando mó fé de que ninguém ia pegar mais nada, afinal não tava mais coçando em mim. Burramente colocando crianças, idosos e grávidas em risco, pelo simples prazer de não perder essa festa que eu realmente gosto

A segunda alternativa era mais dolorida, envolvia apenas sofrimento da minha parte e não colocaria nem o meu cachorro em risco: ficar mais dois dias trancado aqui em casa. Sem Natal, sem ceia, sem risco. Mas não foi essa dor toda, não. Teve telefonema para amigos em outros continentes, teve comida bem boa, teve meditação, teve reflexão por escrito e o mais divertido, participação no amigo secreto via skype. Acabei me sentindo lá, por ter estado lá todos esses anos. E como foi bom trazer todos meus familiares queridos ao alcance dos olhos. Ainda que a muitos quilômetros de distância.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Melhora aí

Em uma semana atravessei apenas duas vezes o portão do lar para ir a mais de um quilômetro deste sofá. Mas como banca de jornal, de dentro do carro não conta, digamos que hoje foi a primeira. Sim, ainda estou passando catapora (como este verbo é mais light que 'transmitindo', né?), mas fui num lugar onde poderia ser tanto algoz como vítima.

Dentro do pronto socorro da Santa Casa de Misericórida de São Paulo ninguém é culpado. Nem mesmo os médicos, que escolheram trabalhar com aquilo, queriam estar ali. Não é tensão o que corre, ou melhor, o que dribla macas, naqueles corredores. É sofrimento puro e destilado. Tensão talvez seja a palavra que melhor expressa a sensação que paira num jornal instantes antes de um fechamento. Mas se comparado com um frame deste lugar, é uma verdadeira volta na pracinha de Cambuí com algodão doce e vovôs assoviando.

Idosos e idosas sobram na figuração. Deitados ou cuidando dos moribundos em macas enferrujadas milimetricamente largadas nos estreitos corredores. Não viam a luz do dia. Ou da noite. Não pense que era um ambiente sujo, só que infelizmente a dor, apesar de cristalina e autêntica, não é limpa.

Num banco de aço, batendo papo com uma bonita doutora de jaleco e crachá, este paciente. Porque cargas d'água ele aguarda ali, sua vez, para ser atendido por algum qualificado clínico do PS. Verdade seja dita, 'sua vez' não, ele aguarda ali para furar a vez de alguém, já que a boniteza ao seu lado é sua prima, que é estudante, que namora um residente, que é faz tudo ali. Será que quem fura fila não tenho peso na consciência? Será que ele tenho direito de reclamar de corrupção, de gritar palavras de ordem e mostrar dedo pra polícia em manifestação na Paulista?

O silêncio temperado de murmúrios daquela fábrica (ou oficina mecânica) de dor foi cortado por gritos. Não eram de pacientes, mas de uma impaciente médica que vinha montada sobre um homem em cima de uma maca tentava reanimá-lo com massagem cardíaca. Quase como uma surfista de jaleco, ela fez com que todos se espremessem entre seu veículo e a parede para não serem atropelados a caminho da sala de trauma. E eu só tinha tosse, supeita de pneumonia á descartada com raio X, além da minha catapora quase sarando.
- Aquela ali na maca é a doutora que vai te ver, mas pelo jeito vai demorar um pouco.

No fim não veio aquela médica excêntrica (lamentam os dramáticos), mas foram só cinco minutos da atenção de uma nipônica de palavras certeiras sem serem escassas, de perguntas precisas, mas não insensatas, que ficava estranhamente interessante naquele jaleco branco. Adorei sair de uma consulta pela primeira vez nessa encarnação sem nenhuma receita além de repouso, limpeza com soro no nariz, boa alimentação e isolamento.
- Não, doutora, mas 15 dias de licença vão matar minha chefe do coração.
- Antes ela do que todo mundo em volta. O que você tem é sério, amigo.

E antes do clicar do carimbo médico, vejo a excêntrica a conversar ao meu lado. Contou que o paciente da 'prancha' hospitalar tinha ido tirar radiografia e que 'parou', mas o técnico não reparou que ele estava mais alvo que o lençol que o cobria. Quando chegou, percebeu que montar seria a única solução, e contou como desceu o elevador, e a adrenalina e o ineditismo daquela modalidade de reanimação. E no final, quando ela já quase ia embora se esquecendo de contar o desfecho, alguém pergunta.

- E o cara, tá vivo?

Com vivacidade e naturalidade de dar inveja a todos os que sofriam por ali, ela arrumou o cabelo, pegou sua prancheta e rumou ao próximo caso. Olhando para trás, disse sem peso.

- Não.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Filmandinho

A pior parte de ficar em casa por alguns dias em prisão domiciliar é que tudo fica monotemático e não dá pra se concentrar em muita coisa quando teu crânio, teu pé e tuas costas estão coçando desenfreadamente. Daí aposta na tevê para passar o tempo, e é o tempo pior passado porque ele simplesmente passa, mas nada entra. Não fica nada no crânio.

Apostei em DVDs, uma meia dúzia, sei lá, tipo um por dia. À tarde, porque assistir Mulheres não dá mais, Mamma Bruschetta que me perdoe. No enfadonho clima, vamo resenhar?

Vi Valsa com Bashir. Animação para incomodar, e consegue. Não é o melhor filme de 2008 (como dizia o guia 'to do' de Londres, era o único filme 5 estrelas que tinha, me lembro). Mas tem muita coisa bonita e umas seis cenas eu adoraria ter em pøsteres na minha parede. Mas fala de Sabra e Chatilla, fato que nunca deve ser esquecido.

Também teve Quase Dois Irmãos, de Lucia Murat, que pode-se dizer que não é apenas mais um filme de cadeia brasileiro, mas que mostra com mais cuidado o nascimento do Comando Vermelho (até entaão Falange Vermelha) e os aprendizados com os presos políticos de Ilha Grande. É mil vezes melhor que 400 contra 1, tá? Caco Ciocler e Flávio Bauraqui tentam salvar com brilhantes atuações um roteiro com falhas e um pouco longo, de Paulo Lins, 'o cara' de Cidade de Deus.

Tivemos a maravilhosa, dolorosa e possível (apesar de fictícia) história de Lemon Tree. Baita roteiro, baita ideia, baita interpretação. Demorei demais pra ver. E só vi graças à Carol Marra, valeu coisa mais gente boa do mundo!

Hummm, só pra não parecer que eu não vi nada na TV a cabo, Sequestro do Metrô 123 é um belo dum filminho de ação e de Denzel, é o clássico filme Denzel Washington. Quem já viu Um Plano Perfeito e Dia de Treinamento sabe do que eu to falando.

E com essa gripe e essa dor de ouvido que aproveitaram a imunidade baixa da catapora, pelo jeito a maratona vai continuar. Já temos Cidadão Boilesen e O Prisioneiro da Grade de Ferro esperando.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Motivo de criança

Para faltar uma semana no trabalho o cara tem que ter uma boa razão. Ou algumas. Confesso que não piso lá há quase três dias já. E tudo por um motivo de criança. Ou melhor, que a maior parte dos pimpolhos e ex-jovens conhece bem: catapora.

'Mas eu já tive catapora, não pode ser', pensei ao ver meu rosto na manhã de ontem. Domingo deu febrão, dipirona e relax resolveram. Segundona cheguei cedo na firma, depois do almoço voltei a me sentir mal. Voltei pra casa no meio da tarde já nocauteado. Nondé que eu ia imaginar que minha terça-feira começaria com um susto diante do espelho?

Eu tava me coçando todo, muito desconfortável. E se eu fosse dar expediente com aquele monte de mancha na cara no mínimo ganharia um apelido do tipo 'Geração Geek' ou 'Super Nerd' do sagaz colega do Jornal do Carro, vulgo Borracharia. A médica não olhou com atenção e sempre que piso numa UBS relembro que país é esse. Pelo menos na receita ela caprichou na caligrafia. Sem ironia, juro.

Quando você fica doente vira especialista naquilo que tá te fazendo mal. Pesquisa tudo na internet, entende como funciona, quando se cura já tá pronto pro mestrado. Tem gente, como o marido de uma ex-colega minha, a Sumara, que fez um blog contando da luta dele contra o câncer. Não, não vou encher vocês com minha paciência contra a coceira da catapora, haja saco, né?

Mas foi estranho porque eu já tive de lidar com essa moléstia traquinas quando tinha entre 8 e 9 anos, me lembrando bem dos banhos de permanganato de potássio, um comprimidinho púrpora. MAs dizem que ela nnao vem duas vezes numa mesma encarnação. E daí ela resolve bater à porta 26 anos depois, numa semana crucial (às vésperas das festinhas de fim de ano - amo) em que eu concluía diversos projetos importantes no trabalho e da rua pra fora, estava especialmente de bem com a vida.

Mal humorado, com muita dor de garganta, cabeça e ouvidos, liguei para minha amiga xamã. Ela riu, já que vinha me tratando há tempos, sabia que havia algo de ruim por vir. Mas me disse: 'peraí, isso tem um lado bom. Você vai colocar um monte de coisa ruim pra fora, vai fazer uma limpezona'. Gostaria de não precisar colocar nada para fora cutaneamente. Eu, pessoalmente, ainda prefiro a escrita.

sábado, 11 de dezembro de 2010

Devagarando

Não frequentemente quem entra aqui percebe que o SDA anda mais às moscas que loja de CD e K7 da Santa Ifigênia. Alguns reclamam, os que lembram. Os que esquecem, esquecem. Eu também me esqueço das respostas que dou, que falo que volto, que já já retomo o ritmo ou que tô com um post irado na manga. Não tô. O trabalho tem me consomido (não isso não é nem um pouco ruim), escrevendo mais do que imaginei um dia nessa vida e depois de um dia (todos eles, ultimamente) exaustivo ter pique para escrever coisas que me agradem parece ser algo mais difícil que achar iglu no Acre. Mas, tks God, há as excessões, e é delas que é gostoso se alimentar.

domingo, 7 de novembro de 2010

Amanhã, roupa de peixe no Ceasa

O cara ainda não entendeu. Acordou 8 da matina sem nenhum rancor, sorrisão no canto da boca. Nego, tu tá fazendo o que tu gosta! Tu deu furo nacional no jornal de hoje. E ainda vai pra mais um dia de luta na porta de alguma faculdade por aí. Não vai ver família hoje, não vai ver corrida hoje, muito menos o clássico em que teu tima vai quebrar tabu. E mesmo assim vai estar estranhamente satsfeito contigo mesmo. É muito esquisito mesmo esse papel de embrulhar peixe amanhã no Ceasa...

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Surreal dia de Finados

Daí o cabra acorda meio sem saber onde está. Pisca três vezes enquanto pensa, recorda de leve a noite. Leve é tudo que a cabeça não tava naquela hora. Pelo menos o teto não roda, meno male. Ao seu lado belos cabelos dormem, o rosto virado pra lá. Está com todas as roupas no corpo. Dormiu de calça jeans, literalmente. Uma música alta vem de fora. Putz, é Ivete, fase antiga. Doeu a cabeça, pronto, ressaca diagnosticada. Garrafa d'água gelada goela abaixo. Almoço de funghi com os amigos, ele ri, mas está tonto ainda. Sorve coca-cola como ar, ri de novo e de novo.

Viaduto Santa Ifigênia, rapaz, como é lindo aquilo ali, pensa. O sol bate no meio do vão central. Atravessam escutando soar os sinos do Mosteiro de São Bento pelos vidros do prédios do vale. Sinfonia de sinos. Entram, os olhos dele brilham ao descobrir que não conhecia a mais bela igreja de sua cidade, isso porque mal olhou em volta. Parou e escutou com afinco o canto gregoriano. Ver o que é belo melhorar é sempre entusiasmante.

Saíram da casa de Deus. Olharam para o viaduto, três rapazes ensaiavam passos de funk. Alguém grita, atrás deles onde havia nada agora vem uma multidão. Nossa, é a Zombie Walk, diz o amigo. E começa um festival de figuras mórbidas e divertidas fazendo o ressacado sorrir besta por ver pessoas se juntarem, ocuparem o espaço público e se divertir. Isso não é normal.

O Vale do Anhangabaú tomado por criaturas horripilantemente bem humoradas, rockn' roll rolando, tudo na paz, pouco álcool e pouco stress. Se divertir, numa boa, com manchas de groselha pelo corpo, dando risada, repensando a relação com a morte. Pode ser light, deve ser light, reflete. Param diante de um sound system, estilo jamaicano de se divertir nas ruas, com caixas de som e muito dub, no vinil, coisa fina. Ele não entende da coisa, mas gosta. O céu azul, venta friozinho.

Ele quer porque quer ver Tropa de Elite 2 de novo. Não ficou satisfeito com uma única dose de indignação. Compram ingresso para o filme, cine Marabá, onde não entrava há mais de 10 anos, tranquilamente. Já está na cena em que Nascimento estea nascendo como sub-secretário de segurança pública. Ele já sabe o roteiro, mas os olhos lêem como um horizonte novo.

Atordoada, a amiga sai chorando, desesperada com o retrato assustador do País. Ipiranga com São João, o leitor cantarola a melodia. Uma van bate num motoqueiro. Pelo menos não viu sangue de verdade, bastou o dos zumbis de mais cedo. Deixou a amiga em casa, pensou que a semana começa quarta, apesar de ter trabalhado nos últimos dias. Coisa boa.

Atravessou pela segunda vez o viaduto, pensou pela segunda vez como era lindo, relembro que a mãe há pouco tempo lhe contou que foi obra do arquiteto Gustave Eiffel. Entrando no metrô, avista sujeito sem rumo, aparentemente rejeitado. Ele se aproxima, diz que precisa ir para Artur Alvim. Recebe uma passagem, no caminho vai contando que acabou de sair de Presidente Bernardes, onde ficou por seis anos e que via a rua pela primeira vez.

Estava mais zonzo que um zumbi, mas contou que foi por tráfico de drogas e que a cicatriz em seu rosto foi de facada na cadeia, retalhada com morte. Olha, não é normal escutar de alguém que matou alguém, especialmente mais de um, assim como Capitão Nascimento. E a coleção de cadáveres zanzando pelo centro fazia agora um estranho sentido no fim do dia.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Ben demais

Jorge sentou praca na cavalaria
E eu estou feliz porque eu tambem sou da sua companhia
Eu estou vestido com as roupas e as armas de Jorge
Para que meus inimigos tenham maos, nao me peguem,nao me toquem
Para que meus inimigos tenham pes,nao me alcancem
Para que meus inimigos tenham olhos,e nao me vejam
E nem mesmo um pensamento eles possam ter para me fazerem mal


E quando você já tá cansado, mas o cara não quer parar de tocar? Sem a menor intenção de deixar ninguém ali parado. Tenho a impressão de que a mãe dele o batizou Jorge e pensou: 'esse desgramado vai colocar o mundo pra dançar'. E alguém colocou o suíngue todo do mundo na ponta dos dedos e naqueles violão que ninguém sabe tocar igual. E não dá pra explicar o que é ficar duas horas com esse cara a poucos metros de você. E estar ao lado de uma porrada de gente que você gosta. Com certeza um dos maiores privilégios que já tive. Sei lá, post besta, mas de Ben com a vida.

PS: Salve Jorge.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Todo mundo e ninguém


Nunca tinha me acontecido ter a certeza de que num mesmo espaço eu conhecia tanta gente e ao mesmo tempo ninguém. O SWU foi uma espécie de portal em que as pessoas entravam e evaporavam. Muita, mas muita gente mesmo que eu adoraria ter encontrado sequer passaram perto de mim ou sabiam que eu estaria por lá. Fora o pessoal que tava te procurando, celular mais morto que paciente em maca do IML. Era um anônimo no meio de mais um monte. E todos o eram também. Não sei se pelo tamanho colossal do evento ou por alguma conjunção de fatores cósmicos, as poucas pessoas que encontrei acabaram me passando uma mensagem em comum. Todas tiveram um significado, fizeram sentido. Mas uma coisa é fato, tava incrível aquilo lá.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

What better time than now?


It has to start somewhere
It has to start sometime
What better place than here
What better time than now

Na quarta música pararam o show. Se continuasse daquele jeito alguém se machucaria feio. Não tinha como não sair do chão a cada minuto. Tava tenso, tava. Tava pesado, tava. Mas ninguém tava nervoso, era ansiedade, medo. Os riffs da guitarra de Tom Morello eram como faísca num mar de gasolina. Naqueles videoclipes velhos da MTV eu via rodas e rodas abertas, mosh pits aos montes e nego pulando que nem condenado. Não tinha ideia de que eu também reagiria assim quando o pau começou a comer solto. Já não tinha mais os amigos por perto, levados pela multidão. Meio egoistamente me coloquei em mode de transe, de dispersão e devaneio absoluto. Entrando em alfa a cada grave do baixo, a cada gatilhada da batera. Como três instrumentos e um gogó podem deixar tanta gente em êxtase/fúria? Que me desculpem as big bands, mas dá pra fazer muito, mas muito barulho com pouco equipamento e muita ideia na cabeça. O que deixa um fã do Rage endiabrado é mais do que a batida funkeada e o braço pesado na caixa, é mais que o compasso incessante de adrenalina. É mais. É a ideia, e a eterna esperança, de que se possa viver de forma mais justa, respeitando mais aos próximos, sem todo mundo querer levar vantagem em tudo. Seja lá o que for preciso para isso acontecer.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Gelada do outro lado da cidade

Mas não era muita coisa o que ela queria. Quem sabe só umas risadas num final de tarde com cara e cheiro de São Paulo. Uma cerveja mais gelada que a risada do chefe dela, nada difícil, porque simpatia nunca foi o forte dos chefes dela. Quem tem sorriso desconcertante é punida com a antipatia mais vil, é lei dos reversos, tá escrito nas lorotas populares. E como ela arrasta olhares, não podia ser diferente. Olhos seguindo os olhos negros e infinitos, os verbos todos se misturando nela, sobra verbo pra falar, bem e mal. Mal sabia ela que só uns golinhos de gelada já esquentariam suas ideias, suas preguiças. Daí o telefone vibrou no bolso de alguém, em algum canto sujo, distante e há alguns quilômetros de engarrafamento daquele pecado. Chamasse que ele iria, blefasse que ele estaria, chorasse que ela a faria doer a barriga como remédio implacável. E aquele monte de zica pareceria um caminho de rosas porque no final teria. Teria ela.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Na sua sola

Daí eu tava entrando na zona eleitoral, aquele nobre lugar para onde me desloco a cada dois anos. E claro que eu não tinha nem pensado no que eu ia fazer ali. Simplesmente estava ali. Daí eu lembro que eu tô ali pra eleger uma meia dúzia di bastardi, digo, de representantes legítimos meus e do povo. Gente que vai me representar, que vai honrar as convicções que eu achei que tinham a ver com as minhas ideias. Eu não sei como vou encontrá-los, mas talvez pegando um santinho desses no chão com certeza é que vou encontrar o cara certo pra mim. Meu candidato tá me esperando debaixo da sola do meu sapato. Só eu que não encontrei.