quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Terrivelmente humanos

Todo mundo sabe onde estava em 11 de setembro de 2001. E quase todo mundo que quer falar disso começa o texto assim. Bom, o que o décimo aniversário dos ataques me fazem perceber é o quanto ele mudou nossas vidas. Não o mundo, não vejo tanto assim. Apesar de o quarto avião não ter batido na Casa Branca ou onde quer que se destinava, acho que o atentado nos trouxe à essência humana. Por lembrar tão bem onde, como e com quem estávamos naquele ensolarado dia em Manhattan, eu acho que isso ficou eternizado em nós com a relevância de ter começado dois movimentos. Um é a reflexão sobre o que queriam dizer aqueles terroristas e o grupo que dominou os aviões. A outra é o nosso retorno à condição extremamente humana de vulnerabilidade e imprevisibilidade. Simplesmente não sabíamos o que iria acontecer dali pra frente e isso nos deixava de certa forma muito impotentes. Por um momento, nós, civilização ocidental predominante, dona da verdade, da força e da grana, não sabíamos o que fazer. E principalmente como pensar. E com Bin Laden vivo ou morto, ainda acho que não entendemos nada.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Mas que que aconteceu com seu pé?

Faz um mês que 98,5% das minhas conversas são praticamente monotemáticas. Claro que se fala de outras coisas, em 15% do tempo de duração que resta das conversas. Mas está comprovado, quem te conhece pouco vê na bota ortopédica (aka robofoot) e no acessório de apoio - bengala ou muleta - uma maravilhosa desculpa pra puxar assunto.

Quem me conhece sabe que eu gosto de falar. Só que de vez em quando eu não aguento mais contar a mesma história, mesmíssimo caô. Daí alguém deu uma ideia: usar a criatividade. E meus maravilhosos dons teatrais. A regra: sempre que estivesse acompanhado por alguém que soubesse como foi meu acidente, inventaria uma história diferente.

A vítima 1 foi a mais hilária. Com olhar sério, um pouco cabisbaixo e com cara de dor, comecei a narrativa. 'Existe um lugar no Mato Grosso do Sul, um chapadão, onde existe uma comunidade chamada Projeto Portal. Por lá costumamos avistar e ter contatos com seres extraterrenos. Foi durante uma experiência de quase abdução que eu machuquei o pé. Meus chacras não estavam todos abertos para ser competamente abduzido e poder ser levado para uma volta em um nave intergalática. A poucos metros de entrar na aeronave, me deu uma bad vibe, meu chacras se fecharam e vibe complicou. Caí, quebrei o pé". E saí sério.

A segunda foi mais utópica, mas contada com a mesma seriedade. 'Eu estava na casa do Geraldo Magela, aquele humorista cego, fazendo uma entrevista para um frila de uma revista de acessibilidade, quando de repente, a luz da sala queimou. Ele só percebeu porque eu falei, claro. O apê dele era escuro, comecinho de noite, não consegui enxergar nem a cor do meu bloquinho. Ele muito gentilmente disse que na dispensa havia lâmpadas no armário superior direito perto da porta, assim como uma escada no canto esquerdo, próxima ao interruptor. Fui lá. Claro que não seria eu que iria segurar a escada. Quando eu estava trocando a lâmpada, aquele ceguinho filho da puta foi fazer piada, tremeu levemente a escada e eu caí. Mas pelo menos ele se fudeu também porque eu torci o pé, mas a escada caiu em cima dele".

Aceito sugestões para novas, chulas e/ou criativas ideias. Pode deixar só a primeira frase, que o resto eu invento, afinal trabalhar com a verdade não pode engessar o profissional.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Distorcendo o nariz

De todos os meus sentidos que não funcionam - ou seja, quase todos -, o que provavelmente menos foi agraciado é o o olfato. De rosas, de pizza, de maconha ou maresia. Sinto pouco cheiro, quase nada. A ineficácia é tamanha que todo cheiro que sinto, duplico mentalmente para tentar entender a dimensão. Sinto cheiro na imaginação.

A rinite é uma espécie de miopia com hipermetropia nasal, temperada com astigmatismo. Uma calvíce crônica dos odores. Cada vez mais você sente menos odores. E trabalhar na Marginal do rio Tietê, por supuesto, não melhora em nada isso, mas até que a rinite ajuda a não sofrer tanto.

Mas algumas vezes, meio que subitamente, a narina se abre que nem perna na zona. Uuuuuuu. E a enxurrada de informações olfativas demoram um tempo para serem processadas. Confesso que alguns abraços femininos induzem essa reação. Um brinde às cheirosas.

Cigarro é outra coisa que faz meu nariz apitar. Não tem jeito, acendeu um careta do meu lado, eu acabo torcendo o nariz. Pode até ser uma cheirosa, cigarro é chato. Claro que eu não saio correndo, mas já deu vontade.

Certa vez me ofereceram um tal de Afrin, me garantindo que seria uma espécie de óculos que clareariam o meu olfato, me fazendo respirar numa nova dimensão. De fato, a sensação é maravilhosa, mas altamente viciante. Como míope - ocular, claro - devo confessar que muitas vezes gosto de ficar sem óculos só pra curtir o mundo numa nova dimensão. Fica meio impressionista, tudo borrado, até mais bonito. E acho que por isso não me atrevo a virar usuário de Afrin e afins, para manter esse quase impressionismo olfativo.

domingo, 24 de julho de 2011

Melaleuca espiritual

E de repente ali está meu pé sendo pisado pelo pneu de Palio Weekend numa rua pouco movimentada do bairro do Pacaembu. Me lembrar da cor seria um pouco muito. Recordo-me do voo, do grito de ‘cuidado, o carro’ e talvez da minha mão no freio. O fato é que a bicicleta está agora em cima da minha cabeça, que estava quase sob o carro. Quase. Que sorte, pensou o leitor.

Que sorte, penso eu. Perguntam se estou bem, alguma resposta mal criada até passa pela minha cabeça, tamanha a clareza que me envolve. Sinto que bateu, mas a dor não vem. Estranho. Um estranho familiar. Dos tombos de criança, dos ralados. Meu cotovelo pulsa, e entre minha clareza e meu bom senso me avisa estar mais ralado que o parmesão na macarronada que começaríamos a preparar.

Era domingo, daqueles azuis de veranico de inverno teimoso de país tropical. Tiram a bike de cima de mim. Voz conhecida, conforto. Tio é pai nessas horas. Sim, consigo levantar, acho. Hospital, bora, diz o atropelador. Aterrorizado está ele. Não eu.

Com uma frieza improvável, e louvável – modestamente – aceitei o Samaritano em detrimento da Santa Casa. Lá tem convênio, pensam. Já que to pagando Amil há um mês e meio, bora. Tio pergunta: ‘acha que quebrou?’. Acho que não, mas tá feio, foi ligamento, aposto.

A pergunta mais feita ao longo da semana foi: ‘doeu muito’. A resposta parece besta – e é mesmo – doeu pouco na hora, mas a consciência da adrenalina que me impedia de sofrer foi linda. Nunca estive num tiroteio, mas imagino que ser baleado num tiroteio deve ter esse gosto. A substância corre tão forte na veia que inibe que o cérebro processe o sentimento de ‘dor’, pura e simplesmente’. E ter a perfeita noção de que isso estava acontecendo, até quase uma hora depois, quando, apesar do coração acelerado, senti o excesso de tremedeiras a me levar a uma situação em que iria sucumbir. – Chefe, apressa o sedativo, vou entrar em choque, disse ao enfermeiro.

O tio disse que eu ‘tremia, coitadinho’. Mas falava, eu falava, procurava me divertir. A consciência me entretinha, fazia rir. Toca a dizer bobagem, porque se não resolve, alivia. Tipo na vida, mesmo. A dúvida do médico era: pro raio x direto ou sedativo? ‘Dopa eu, doutor’. Além de ser legal, vai ser muito necessário, porque só a ideia de dobrar o joelho e o tornozelo me arrepia nesse instante.

Leve, easy, amigável. Esse era eu depois de algumas cositas na veia. Me leva pra xerox. Tive certeza que o radiologista era corintiano só pelo jeito como gritou alguma coisa no fim do corredor. Mas me tratou feito são paulino. E eu gritei feito são paulino a cada movimento que ele pedia para encaixar o pé e o joelho. Pra cima, pra baixo, de lado, oblíquo. Isso porque foi com doping.

O Brasil haveria de ser eliminado nos pênaltis pelo Paraguai dali alguns minutos. Mas isso não importava. Sem fraturas, disse o doutorzinho. Mas tem lesão de tendão ou ligamentos. Só vai dar pra ver quando desinchar. Uma semana de tala de gesso.

E ela passou bem até. Em sete dias me alfabetizei com muletas, claro que ainda estou juntando sílabas, mas me comunico pela casa toda. Banho é um happening, can’t deny. Carinho, cuidados e atenção de todos. Até dos mais distantes. Enfim, na média, os ralados doeram mais.

E é aí, na sexta-feira, que entra a melaleuca. Plantinha australiana batuta, que vem em forma de óleo, para dissolver em creme. Potente. Cheiro forte, não desagradável. Recomendação da amiga e xamã Lisandra. Cicatrizante poderoso, como nunca imaginei. As casquinhas dos meus ralados foram-se indo formosas de ontem pra hoje, dando lugar a uma pele nova, rosada, mas forte apesar de jovem.

Mas quem sabe o que me interesse seja o que vem junto com essa cicatrização. O poder de ver sua pele se refazer hora a hora diante dos teus olhos também te faz refletir na capacidade das coisas dentro de você se reconstruírem, se reestruturarem e reerguerem. Robustas, fortalecidas e mais versáteis até. Gosto do conceito de resiliência, pela mobilidade e flexibilidade que implica.

O tombo, o acidente – seja lá como chame – não virou uma reflexão sobre pedalar ou não em São Paulo, mas algo maior. ‘Aproveita pra pensar na vida’, foi a segunda frase mais escutada na semana, depois de ‘você tá bem?’.

A imobilidade e a incapacidade física despertam outras capacidades. E perceber isso em uma semana de confinamento foi lindo. A reflexão, o entendimento e a percepção são uma espécie de melaleuca da alma.

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Primeiro no vestibular

Simplesmente é fato. Além de calcada em uma estatística parcial e não embasada, minha próxima afirmação será assaz preconceituosa e carregada de inveja:

99% dos candidatos que passam nos primeiros lugares no vestibular são:

a) loucos
b) emocionalmente desequilibrados
c) chatos
d) esvaziados de inteligência emocional
e) todas as anteriores

Pode reparar naqueles caras que aparecem em outdoor de cursinho no começo do ano: tem sempre os campeões da Fuvest, da Poli e do ITA. Eles são potenciais alunos jubilados, vítimas de bullying e até matadores de criancinha. Ao longos desses tempos trabalhando com educação tenho colecionado histórias assombrosas sobre os 'geninhos' do vestibular. Em boa parte dos casos eles desvirtuam. Ou melhor, não virtuam, porque não tiveram base.

Comecei com um tom debochado, mas o que quero dizer é sério. Vestibular é um baita de um sistema de seleção. Em um país dominado pelo jeitinho, pelo dedo amigo da indicação política, pela camaradagem, conseguiu-se criar um filtro que avalia de forma correta. Mas não justa.

Primeiro porque os candidatos não estão em pé de igualdade, como se sabe o ensino médio brasileiro público é, em geral, muito fraco. Se a base é fraca, não é um ano de cursinho que o colocará no nível de um bom vestibular de faculdade pública.

Mas o principal agravante, na minha opinião, é que vestibular não filtra caráter, não seleciona necessariamente candidato com bom dicernimento emocional e capacidade de agregar nas aulas. O cara pode ser um gênio nas questões teste e até escritas, mas um alienado com as palavras, com a associação de ideias e um zero à esquerda nos debates, na interação com os colegas.

Qual a solução para isso? Confesso que não sei, mas alguns vestibulares como o da Direito FGV fazem entrevistas, dinâmica de grupo e outras atividades que têm funcionado bem. Claro que esse tipo de avaliação para escolher alunos de uma instituição pública (um curso superior completo custa entre 50 e 100 mil reais) poderia dar margens a todas as picaretagens das quais vangloriei os grandes vestibulares de estarem imunes.

Mas de uma coisa eu tenho certeza, o sistema atual ainda está longe do ideal no que diz respeito a peneirar as cabeças mais sãs. Não adianta achar que o cara que faz a melhor equação será o melhor profissional, o mais valorizado, e principalmente, alguém que tenha alguma preocupação em deixar esse lugar - leia-se: mundo - melhor.

domingo, 26 de junho de 2011

Mais três a um

O que é melhor, ganhar de 2x0 ou de 3x1? Dia desses meu time ganhou pelo segundo placar de um grande clube gaúcho, fui ao jogo, foi divertido e um belo aprendizado. Levar gol de empate abre os olhos da equipe. Enquanto isso, o maior rival da minha equipe havia vencido sua partida por 2x0.

Não levar gol ou comemorar três? Prefiro a segunda opção, porque é a menos fácil. Muitas vezes é ótimo uma vitória de lavada (que nem a de hoje, vale dizer - parabéns gambazada - vai ter troco) para animar um time. Mas os erros do adversário têm muito valor quando vêm acompanhados de aprendizado. E em geral, a gente aprende mais errando.

Não só nos campos, nos jogos, nos esportes. É importante saber tomar gol na vida, compreender essas pequenas derrotas do cotidiano. Perceber que o jogo não tá ganho te faz ficar alerta, esperto. Vitórias sem levar gols se tornam óbvias, rasas, previsíveis. E tudo nessa vida tem gols, só reparar.

E quando a gente toma um a gente acorda, a gente mexe no time, não sossega enquanto não ganhar a batalha. Tá meio Augusto Cury, mas é isso aí que eu tava pensando mesmo. Em suas pedreiras diárias, que tenhas em seus placares mais três a um do que dois a zeros.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Pela capa

A gente tá acostumado desde pequeno a julgar as coisas pelo que enxergamos. A primeira impressão sempre mandou porque estamos acondicionados e agir de acordo com uma porção de ideias e conceitos que nos foram embutidos desde pequenos e que nos fazem tomar nossas decisões. Ao comprar livros em sebos e livrarias, agimos assim. E com pessoas não é diferente.

Quem não julga um livro pela capa ou não nasceu no século XX ou tá mentindo. Claro que há ótimos livros que se salvam já pelo título, e também deve-se levar em conta que nem sempre a capa estampou algo mais do que os nomes da obra e do autor em caixa alta.

E ninguém se interessa (primeira impressão) por alguém se não tem afinidade por 'livros' daquele tamanho, cor, estilo. Se a arte da capa não empolga, vamos ao título. Nome em geral é mais pra criar aversão do que afinidade. Tem os 'normais' e os exóticos. A maior parte dos normais se atraem. Vira e mexe aparece um nome exótico que traz de quebra alguém bacana.

E o conteúdo, é igual a comprar livro. Se envolver com alguém é tarefa engraçada. Você folheia naquele começo, bate os olhos em alguns parágrafos, escuta umas histórias, pode dar umas risadas, se prender à leitura. Ou não.

A gente compra gente pela capa, pela folheada, pelo prefácio que algum amigo que te apresentou escreveu naquela mesa de bar. 'Você precisa conhecer uma amiga minha...'. Depois tem o primeiro capítulo, que é sempre delicado. A imersão. O segundo, o roteiro tem que fazer sentido. Se chegar até a página 50 sem ficar de saco cheio é bom sinal. Se passar da 51, vai tranquilamente até o fim.

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Ai, ai, ai, ai, tá chegando a hora


O fluxo de ar que fazia a temperatura do meu nariz congelar na noite da última terça-feira - aka ontem - nem me fez desconfiar de que trazia duplamente os bons ventos do fim de ciclo.

Por um lado, é óbvio que eu estava ali naquele tobogã pacaembuense para uma despedida. Um triste, mas bonito e necessário adeus. Mais que útil, justo, com dignidade. Daqueles que valem por si só, pelo ritual, que só de existirem já são digníssimos. Despedidas assim são corretas e marcam o ponto final de um movimento - no caso dele - de uma carreira que valeu a pena. Tanto para ele quanto para o Brasil.

A uns mil quilômetros do Pacaembu, no Planalto Central, mais precisamente no palácio homônimo, um outro gordo, também se despedia. Muito menos carismático, muito menos craque e muito menos útil e relevante para a nação. Aquele que não tinha nada porque se despedir, pois nem sequer deveria estar ali. Muito menos mandando e desmandando.

Se tem um dos dois fora de forma que tem moral para ser estadista, sem dúvidas é o que foi flagrado com travestis num motel na Barra da Tijuca. Já o flagrado - twice, btw - fazendo falcatrua, é quem sempre sonhou com esse posto. Em vão, espero. Ora se utilizando de seu poder para bisbilhotar o sigilo bancário alheio, ora multiplicando seu patrimônio às custas do seu e do meu dinheiro.

A sensação de dever cumprido nos olhos lacrimejantes do rechonchudo atacante no centro do Estádio Municipal Paulo Machado de Carvalho carregava a sobriedade e sinceridade de um estadista ideal. Não que fosse perfeito, mas tinha consciência de seus atos, gostava de servir o Brasil - claro, também serviu sua conta bancária, só que honestamente - e de fazer algo para alegrar, nem que por um grito de gol, a vida de milhões de pessoas. Apesar de fácil, aquele sorriso nunca foi amarelo.

A única coisa em comum entre Ronaldo e Palocci é que ambos estão gordos e largaram suas funções oficiais ontem. Por enquanto, a despedida ruim é a do futebol e a boa é a do campo político. A pena é que Ronaldo não volta aos gramados. E o outro não só volta a atuar, como certamente ainda vai atacar o seu bolso.

terça-feira, 7 de junho de 2011

Um piano na noite

O Santos jogava, escutava no rádio. Caminhava. Metrô Santana. Bela noite fria de junho. Um a zero. Passei a catraca. Som gostoso, um piano ali no canto. Que bom que não tem mais só na Luz ou na Sé. Colocar pianos pelos cantos das estações e das cidades deveria ser lei municipal. Colorem o ambiente, divertem o som, apesar de frequentemente serem marrons cor de carvalho.

Muito bem tocado, entusiasmante. Leve, profundo. Tirei os fones do ouvido. Não tinha porque priorizar a afoita locução diante de um gesto de tamanha solidariedade. É de uma elegância ímpar quando alguém que detém a habilidade, quando não dom, de tocar um instrumento se propõe a dividir seus conhecimentos com os outros.

E nessas horas não é necessário saber o que está sendo tocado, apenas que pareça ou que soe belo. E isso sem dúvidas acontecia demais naqueles instantes. Era um homem alto, de rosto magro, angulado. Confesso que atravessaria a rua em condições normais. Jamais meu preconceito me permitiria imaginar que detinha tamanha arte nos dedos e menos ainda que era tão generoso.

Outros três transeuntes pararam o que faziam, e foram ali ganhar alguns minutinhos. Quem sabe atrasem uns 10 minutos. Mas assim como eu, acredito que chegarão em seus lares com o espírito melhorado, aliviado. Inspirado ou não pelos belos acordes, ao mesmo tempo lá no Paraguai, Neymar marcava mais um gol para o Santos.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Nem sempre o de sempre

Todo mundo sabe qual é seu prato preferido, a cor predileta, o jeans que mais gosta ou jeito como o pão na chapa fica mais gostoso. Ou um modelo de camiseta, cueca ou tênis que cai tão bem que não dá pra usar outro. Cada um tem um ou mais restaurantes onde vai para comer sempre a mesma coisa. E parece que uma vez que você descobre que gosta daquilo, daquele jeitinho, isso automaticamente diminui, quando não encerra, todas as outras maneiras de se fazer algo ou de se abrir para provar o diferente.


Quando o chapeiro da padaria sabe o ponto do seu pão só de te ver passar pela porta ou o atendente já sabe que seu cafezinho é com um pingo de leite, esquece, você dificilmente pede uma coxinha ou um cappuccino. E muitas vezes o tal cappuccino com coxinha poderia ser candidato ao novo favorito, destronando o menu ‘de sempre’. Até jornal é bom trocar de vez em quando. Nunca citei Da Vinci, mas vou ousar. Ele disse uma vez que quem fixa seu olhar numa única estrela não muda de ideia'.


É claro que ha circunstâncias em que ‘o de sempre’ é bom como nunca. Se passou uma temporada fora de casa ou teve que comer comida requentada ou preparada por namorada nova que ainda não sabe o ponto certo das coisas, tá valendo pedir o default. Se tá carente, tomou um pé ou tá muito tenso com o chefe?, vai lá também porque é mais que justo.


Dar uma chance para uma sensação nova é algo que estamos nos destreinando a fazer. Tudo é cada dia mais customizado ao gosto do freguês. Mas essa padronização tende a impedir a flexibilidade, a abertura ao novo. O imprevisível, o improvável.


‘O de sempre’ é segurança, é abraço de mãe, é o sem erro. Claro que é bom, mas assim como não existe perfeição sem repetição, não existe acerto sem erro. E pro tanto de coisa que se pode descobrir simplesmente experimentando o B em vez do A, talvez valha a pena não pedir sempre o de sempre.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

A promessa

Hoje faz 20 anos que fiz a única promessa que tenho certeza que mantive até hoje. Sobre todas as outras eu posso ter revogado, ou esquecido, ou descumprido mesmo. Mas essa não, essa é forte, essa significa muita coisa pra mim.

No dia 16 de maio de 1991 morria minha avó. Eu queria muito entender o que tinha acontecido, minha mãe me contou que ela teve um derrame. Eu perguntei o que significava aquele nome horrível e explicou que era um rompimento de veias no cérebro. Indagada por mim sobre como isso acontecia, ela disse: o cigarro faz isso.

Me lembro com clareza como se fosse hoje. Do alto dos meus sete anos, me sentei em um degrau da escada acarpetada daquele sobrado onde morávamos, pensei que nunca mais iria ver minha avó (de fato não vi) e me prometi que nunca iria fumar um cigarro. Lógico que hoje eu sei que o cigarro não é a única causa de derrames, mas a promessa continua mais que forte. E a saudade também.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Bumerangue

Quando você vai atrás, alguma coisa pode acontecer. Quando fica parado, alguma coisa também pode acontecer, mas as chances são menores. Isso eu acabei aprendendo na lata, quem sabe seja por isso que eu goste tanto de me mexer para alcançar o que me faz bem.

Engraçado é que escrever aqui é, de certa forma, ir atrás. Muita gente vem parar aqui porque é meu amigo, conhecido ou NDA. O que escrevo aqui é num tom, numa pegada muito diferente da de segunda a sexta-feira. É algo com outro espírito. Sem querer querendo estou correndo atrás do leitor.

É desabafo meu, claro, mas de certa forma quero fazer isso ecoar nos outros. E é delicioso quando ecoa em amigos queridos, que há tempos não vejo. Quando algumas linhas suas fazem o leitor se dispor a doar algumas linhas dele para ti, me dá a sensação de que a missão foi cumprida. E ultimamente, que bom, parece estar sendo a contento.

terça-feira, 10 de maio de 2011

Cabelos normais

Não sou um cara muito aparelhado de cobertura capilar. Beleza, tá tranquilo, desde meus 17 anos comecei a ficar desfalcado e após uma década, boa aprte dela com terapia, eu acho que deu tempo suficiente para entender e, quiçá aceitar, que a vida é assim mesmo. Na real já nem ligo tanto e descobri que o caminho para tratar qualquer imperfeição é o humor.

Vai, gordinho, me chama de careca. Você também narigudo. Ah, e você também vesguinho, me sacaneia, please. No fundo eu meu divirto. Na verdade as pessoas se diferenciam nos defeitos, e se tornam mais atrentes por conta deles. As imperfeições são a oportundiade de destacar o que se tem de melhor. É ali que a pessoa se diferencia, fazendo aparecer suas qualidades e tendo a chance de encantar quem quer que seja.

Bom, falei de cabelo. Falei de imperfeição e até filosofei (xexelentamente) sobre como utilizá-la a seu favor. Tudo isso porque não entendo pra que serve a denominação 'cabelos normais' impressa nas embalagens de xampu. E que, se normalmente todo mundo tem cabelos, provavelmente os meus devem ser anormais. Só que nunca vi xampu pra mim.

domingo, 24 de abril de 2011

Everyday learning

Uma das grandes vantagens da profissão que eu escolhi (ou que me escolheu, ainda não entendi direito) é que ela é uma escola diária. Claro que em todas as tarefas os profissionais vão ficando cada dia mais hábeis em seus deveres, desempenhando com maior maestria a função para a qual foram designados. Isso é natural.

Acredito eu em que qualquer metier em que haja interação com o público o aprendizado é maior. Para mim não existe nada mais fascinante do que gente. E interagir com pessoas é enriquecer na certa. Nada contra quem constrói ponte, contra quem limpa as cidades, contra quem faz o pão. Muito pelo contrário, são imprescindíveis e essenciais em suas funções. E acho uma pena que tenham pouco contato com outras criaturas que não seus colegas. Mas não tem ciência mais interessante do que a humana. Ah, não tem.

Não apenas entrevistar pessoas é um exercício de aprendizado muito intenso, como também há uma troca grande de experiências. São poucas as vezes em que não tenho a sensação de que saí da entrevista sabendo mais, não só sobre aquele assunto, mas sobre mim mesmo, sobre tudo. Quem sabe seja presunção de repórter, mas acho que a gente enriquece mais do que a média dos profissionais seja quando entrevista um especialista ou até mesmo um personagem com alguma história pontual ou de vida. É um tesão ser linha frente, ouvir causos, contar histórias.

Muitas vezes adoro saber das coisas antes, informações antecipadas. E admirar o quanto são efêmeras e vê-las se tornando poeira, seja no boca a boca, seja pela internet. A informação passa logo, mas a compreensão fica. Se o leitor esmiuçar a frase anterior pode até encontrar um dos slogans do jornal em que trabalho, mas confesso que a ideia não foi essa. Informação é um tijolo, conhecimento é a parede. Deveria ser mais tocável, perceptível, mas vejo muita gente reclamando da vida sem perceber o quanto se cresce a cada vez que se pega um bloquinho e uma caneta para anotar o que outra pessoa diz.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Me assusta que eu gosto

Isso não existe. Isso não pode existir. No 2'14" tem uma das cenas mais bonitas que já vi. Pausa e me diz se não é uma pintura. E o cara é um artista chamado Tom Curren, e eu tenho um orgulho imbecil de já ter entrevistado e tietado essa lenda. É tipo um Nilton Santos do surf.

Seven Ghosts: Tidal Fantasy from SURFING Magazine on Vimeo.


E continua, e continua, e continua. Tipo conto de fadas.

Seven Ghosts: Is it True? from SURFING Magazine on Vimeo.

E você nunca mais vai ver uma onda de rio assim. Eu aposto.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Cortiça em branco

Não tem nada mais em branco do que meu mural. Vazio, cheio de liberdade para tudo o que eu quiser afichar nele. Na verdade não está em branco porque não é o mural do facebook. Não que eu tenha uma vida social que seja tudo isso, mas ele não está em branco porque é de cortiça, old school mesmo, com tachinhas, boa parte delas coloridas e gastas. O antigo mural se dissolveu, estava muito parado, há muitos anos. Mudou de lugar, ganhou parede e vida nova. Renasceu.

Sei lá se eu faço um mural caprichado ou se ele vai refletir meu compasso do dia a dia, com intensidade, mas sem muitos retoques. Sendo assim, não haverá muitos esmeros e milongas. Mural com pouca coisa é mais feio do que vazio, dá a impressão de que o dono tem pouca coisa em mente. Não sei que foto colocar, ou bilhete, ou ingressos de show, exposição ou cinema.

Quem sabe o do último filme que assisti no Belas Artes, ou então do Cidade de Deus. A surrada entrada do Rock in Rio de 2001 ou a do inesquecível AC/DC em 2009? Do Paul? Do Rage? Fotos de alguma paisagem? Daquela menina bonita? De momentos que me são gratos? Ou se deixo assim vazio, como a tela irritantemente em branco que vi e achincalhei numa Bienal anos atrás. Quem sabe não seja o mural das minhas próprias mudanças?

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Além da vida


A tragédia virou História, que virou livro(s), que virou inspiração para diversos filmes. A queda do avião da Força Aérea Uruguaia nos Andes chilenos, em outubro de 1972, com 49 civis a bordo ficou marcada como uma das histórias de sobrevivência mais épicas da história. Se não a mais marcante, com certeza a mais polêmica, já que os 16 sobreviventes chegaram vivos ao cabo de 72 apenas comendo restos dos companheiros mortos.

Não é um livro que conta aquele canibalismo triste, dolorido, e imprescindível para seguir resistindo. Aborda a relação entre vida e morte com coragem, pois esta é fruto da sinceridade e transparência pois A Sociedade da Neve foi o primeiro livro com depoimentos escritos por cada um dos homens que voltaram para esta sociedade aqui. Esta sociedade confortável, que vai entrar no seu carro e ligar o ar condicionado, ou então a calefação com a temperatura despencar um pouco.

Passar noites a -30°C por mais de dois meses num abrigo precário feito com os restos da fuselagem, não ter nenhuma possibilidade de se alimentar com nada que não seja carne de cadáveres, enfrentar sem nenhuma estrutura fraturas e outros graves ferimentos. Essas foram algumas das encrencas que os homens lá em cima tiveram de lidar, e fica claro logo nas primeiras páginas que comer carne dos companheiros é algo com que lidavam naturalmente e até em tom de heroísmo, por dar ao morto o poder sem preço de perpetuar a vida dos companheiros.

Não penso que faria diferente, talvez sequer sobreviveria. Mas a obra trata de entender por diversos ângulos o que estar vivo e o que é estar morto, já que os 29 passageiros que inicialmente sobreviveram à queda foram dados como mortos cerca de 5 dias depois do acidente.

A Sociedade é uma explicação de como laços sólidos são formados, como se cria um apego fora do normal com pessoas que nunca se tinha visto. Como a vida do seu companheiro se torna inexplicavelmente mais importante que a sua e que essa troca mútua permite, de forma muitas vezes surrealista, que um não perca a esperança em ver o outro vivo e voltando aos braços da família. Faz ver sentido onde não tinha nada.

Livro bom pra chorar, e principalmente, excelente para sorrir.

segunda-feira, 21 de março de 2011

Improdução

Hoje não fiz nada mais que o necessário para não ter que fazer nada de mais.
Mais que nada, fiz o básico para não fazer mais do que o necessário.
Depois, listei o necessário, para que fosse feito o mais devagar possível.
Necessariamente perdi tempo, mas não necessitei de ajuda.
Sei ser desnecessário sozinho, desnecessistar de uma mão.
E necessito de ideias e de palavras, até o momento,
Ainda bem,
Em que se tornam desnecessárias.

domingo, 20 de março de 2011

Desorganizando eu posso me organizar

Encontrei com o que eu era ontem. E anteontem, há muitos anos, e sempre. Dei de cara comigo mesmo naquele monte de coisas que acumulei por toda a vida. Não mexia naqueles armários e gavetas ha uns 15 anos, retirei 5 sacos de 100 litros no total, 3 foram para o lixo, 2 para doação. Carrinhos, suvenirs, fotos, livros, diários de viagem, bilhetes e outras milongas. E foi vindo coisa, lembrança.


Veio cartão de visita de político picareta, broche de NY, camiseta da sexta série assinada (com xingamentos e tudo!), pilha velha. Roupinha de quando eu era bebê, faca de mergulho, livro de auto ajuda, disco de hockey. Ou quem diria que eu reveria aquele pingente que eu ganhei de alguém que foi importante? Um rótulo de cerveja que lembra uma noite incrível, um livrinho de piadas do Ary Toledo. Miniaturas de torres, Eiffel e Pisa.


Mini coleção de foto 3x4 de gente que eu não faço nem ideia do que está fazendo da vida. Mas que foi especial. Letras de música que eu copiei, letras de música que eu inventei, letras de música que eu rasguei, mas não tive coragem de jogar fora. Estojo de aquarela, manuais de instrução, credenciais esquecidas de eventos inesquecíveis.


Carteirinha de estudante/passe de ônibus de 2002, e a de 1998 e a de 1999 também. Apostila de cursos de formação em esportes perigosos, livro com foto de todos do colégio, caneca com a Union Jack que eu não faço a menor ideia de como veio parar aqui.


Disquetes com toda minha (pouca) produção intelecutal até 2005. Radiografias, bolos delas, não sei como posso ter quebrado tanto osso. National Geographics antigas e lindas, colares e pedrinhas que ganhei de presente. Playboy da Feiticeira autografada.


Apareceu Nevermind do Nirvana, em k7, comprada no Hotel Taj Mahal em Mumbai (aquele que em 2008 foi invadido por atiradores, lembra?). Achei também muita coisa que não faz mais parte de mim. E só guardei o que valerá a pena lembrar na próxima arrumação.

terça-feira, 15 de março de 2011

Desconcertando-se

Fazer um filme sobre frustração sem ser triste e tratar o arrependimento sem colocar o roteiro todo na fossa. Tarefa difícil, quiçá inusitada. E um roteiro sobre música clássica tenderia ainda mais a cair pelo caminho dos violinos chorosos. O Concerto conseguiu tocar em tudo isso, só que indo no contra tempo dessa métrica melancólica.


Um maestro, o mais genial deles, foi afastado de suas funções e trabalha como faxineiro do teatro Bolshoi de Moscou. Mas a música, especialmente a obra de Tchaikovsky o persegue, desde quando há 30 anos ele foi impedido de reger a orquestra no meio de um concerto por ter integrantes judeus, perseguidos pelo partido comunista.


Ao final de um triste dia de trabalho pesado, um fax endereçado ao atual diretor do Bolshoi é interceptado pelo ex-maestro antes de chegar ao seu destinatário. Um convite para se apresentar no esplêndido Teatro Chatelêt, em Paris. E num estalo ele resolve reunir seus componentes de três décadas atrás e levar 53 músicos substitutos para concretizar o tão sonhado concerto. E a graça começa ao tentar reunir os ex-colegas, espalhados em profissões esdrúxulas como chefe de tribo cigana motorista de ambulância e vigia de museu. E vai temperado com vodka, desencontros e presepadas.


Mesmo com ares de roteiro Hollywood ‘B’, o filme francês empolga, diverte e até faz pensar, mostrando como um roteiro bem feitinho pode fazer umas horinhas no cinema valerem a pena. E tudo isso embalado por uma trilha de Tchaikovsky, montagem competente e a beleza deslumbrante de Mélanie Laurent (a Shoshana de Bastardos Inglórios), é garantido que você não vai perder seu tempo. E ainda periga de sair chorando do cinema. Ou, no mínimo, arrepiado.

domingo, 13 de março de 2011

Coisa séria

Carnavalizar é perder a preguiça de aceitar a ordem das coisas. Entender que cada coisa tem seu ciclo e que não há mal nenhum em colocar cada um deles em prática. Quem não pensou em fazer jamais pode ter deixado uma ideia guardada. Quem não guarda ideias não guarda vontades. Como por exemplo, vontade de ser um pouco diferente do que se deve ser de segunda a segunda, o ano todo, na rotina do dia de branco.

Se eu caio no suíngue é pra me consolar. Pode parecer bagunça para você, mas para mim carnaval é uma das épocas mais sérias do ano. Não, não organizo bloco nem tampouco tenho responsabilidades como carnavalesco de escola alguma. Não fico de plantão (pelo menos não dessa vez) e não acompanho ponto a ponto a apuração.

A seriedade está na tomada de consciência do momento que ele representa no contexto do ano. É olhando de longe, vendo aqueles ínfinmos 5 dias em meio aos 365 que percebo o quanto são preciosos. O quanto não são comuns e o quanto podemos (e devemos, na minha modesta opinião, usufruir). Quando mais no ano é tão permitido permitir?

Não se trata de sair se jogando em quaisquer braços, embora isso seja demasiadamente aceito e encorajado. Nem mesmo de embriagar-se como se não houvesse amanhã - porque daí você vai lembrar do quê?. Quem sabe seja sobre festejar uma catarse, um transe coletivo de desejo de bem estar mútuo, ainda que efêmero. Talvez seja sobre ser feliz, sobre possibilidades, sobre entender liberdades, sobre escolher liberdades. Sobre ser livre, ainda que de mãos dadas com alguém ou com a cabeça em alguém, não importa.

O que importa é que não pode ser normal. Não pode ser mais um feriado. Em qualquer outro país até poderia, aqui não. Nosso País tem isso no DNA, tudo bem que não é todo mundo que sabe que tem, mas qualquer um pode querer encontrar. Quando a pessoa consegue perceber a graça da fantasia, do deboche, da brincadeira, ela se medica, se cuida, se trata, trata bem a si e ao anônimo ao lado. E se faz dona de si, das ruas, e do mundo.

*Muito, mas muito obrigado mesmo a todos que pisaram naquele Rio de Janeiro e, sem saber, fizeram com bom humor, malícia, respeito, molejo e paz, o melhor carnaval da minha vida.

quarta-feira, 2 de março de 2011

Ensaio geral










Cenas do ensaio técnico da Imperador do Ipiranga e Gaviões da Fiel.
Sambódromo do Anhembi, São Paulo.
Fevereiro 2011
Fotos: Felipe Mortara

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Segunda à segunda

Querem respostas, querem clareza. Esperam mais do que um 'é, é isso mesmo'. Não conseguem todo dia declarações bombásticas, nem furos de reportagem, muito menos algo que mude a vida de alguém. É glamuroso? É sim, vó. Para quem tá de fora. No dia a dia, na rotina, na orelha suada de tanto ficar pendurada ao telefone, nos dedos que doem no final do dia, nos garranchos que precisa-se decifrar no bloquinho, a coisa é labuta como qualquer outra. Dizem que não paga bem, mas nem todo reconhecimento vem com depósitos em conta bancária. Há satisfações que não são pagas em dinheiro. Um sorriso, uma descoberta, um furo, o nome impresso ali, uma história, um flagrante, uma fofoca, um fato. Aliás, acho que esse texto só começou para concluir que ser jornalista é bom, de fato.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Nobre irmão

Precisava deixar registrado isso, mesmo que com uma semana de atraso. Para eu não esquecer, para ele não esquecer.

Moleque, eu lembro como se fosse ontem o dia em que eu fui às 6hs da manhã diante daquele portão meio sombrio na Vila Mariana. Já faz tempo, agora chegou tua vez. Pois é, coisa de todo homem, dever com a pátria, é dever cívico, é um blablablá dos infernos. Mas faz parte, encare como um ritual de passagem. Espero que sejas dispensado logo, que não tenha a má sorte que teve seu irmão de ir até a última chamada e ser dispensado já com colegas tirando medidas para o uniforme e a boina na salinha ao lado. Que sua experiência militar seja de alguma forma enriquecedora e que sirva para algo mais do que matar algumas horinhas de aula, e de sono, em madrugadas difíceis de acordar.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Piloto de espetos

Na média todo mundo gosta de mal passada. E todo mundo quer dar pitaco. Joga o carvão antes, joga por cima, não, por baixo, isso, o álcool, não, tudo isso não, sim, pode pôr mais. Meio terapeuta, meio ditador, eis o dilema de quem está pilotando uma churrasqueira. Ainda mais para mais de 60 pessoas. Um brinde aos vegetarianos que poupam algum trabalho, uma vaia àqueles que vêm cobrar abobrinhas e cebolas assadas como se fossem obrigação. Pô, quer verdura vai no Ceasa. Pra quem não come carne tem cerveja. Aliás, acho que já disse aqui que churrasco sem carne acontece, mas churrasco sem cerveja simplesmente não há. Suco de cevada fermentado é óleo na engrenagem do churrasco, e também nas mãos e na garganta no churrasqueiro. Sem fazer força seu canto é tão concorrido quanto a cabine de um DJ na balada, especialmente se por alguma razão (fome) as pessoas tiverem motivos para não sair dali (linguiça, picanha, bisteca, franguinho, etc...). Exerce papel de rei travestido de plebeu, sempre suado, sujo. A diferença dele pra banda é que se a banda para, todo mundo percebe imediatamente. Já o piloto de grelha só tem sua ausência sentida na hora que a barriga ronca. Em geral não tem reconhecimento, mas tem moral. Não pega ninguém, mas come o quanto quer. Tipo aquele motorista da rodada, que supostamente não bebe, mas no fundo, bem lá no fundão do churrasco, se diverte.