
It has to start sometime
What better place than here
What better time than now
O AMANHÃ JÁ SABE, VIVE-SE HOJE ENTÃO


Nega, quanta coisa na mente. To louco pra assistir o jogo do chucrute contra a paella. Não queria que a copa acabasse. Muito bom ficar nesse semi carnaval durante um mes, este estado de alfa, semi anestesia generalizada na população todinha. Gostoso sentir essa euforia com a coisa mais importante dentre as menos importantes. Nesse momento ela vira a mais importante das coisas e no fim já pouco importa quem ganhou quem perdeu. As emoções, já diria Robertão, o sábio caboclo, essas sim são importantes de serem vividas e lembradas como merecem. O abraço que demos na copa de 2002 e meu pai chorando em 94, acha que eu esqueço? Gritando na rua, ali na Faria Lima, pegando busão pra casa da tia, doido, anestesiado, flutuando. Queria estar daquele jeito agora. Como diria uma frase de um muro da vida: "queria ser o que eu era quando queria ser o que sou agora".
A indecifrável mensagem nos olhos daquelas todas que você não saca qual é a dela de primeira. Nem de segunda. Que fazem sentido sem ser nenhum um pouco claras. Do tipo que pode pentear o cabelo a tarde toda que não fica mais linda do que quando está despenteada. E as que pegam na mão enquanto beijam e as que não pegam na mão enquanto beijam. Que brincam de sumir por algum tempo no fundo esperando que você suma mais que elas, mas que sempre saiba a hora certa de aparecer. A hora certa pra elas, claro. Seus humores previsíveis como o tempo no verão: só se sabe que vai chover. Quando, não importa. Desejos e segredos improváveis e impublicáveis que adoramos descobrir, e mais ainda, não saber. Quanto mais se sabe sobre elas mais se sabe que pouco sabe sobre elas. Saber que quanto mais mar se navega, mais mar se tem para navegar. E como é bom se declarar marinheiro sem porto, à espera daquilo tudo que espera o tempo certo sem ser nenhum um pouco previsível.
Parecia que todo mundo ali naquele metrô iria perder um avião, que tavam correndo desperadamente ao aeroporto no último minuto, que já tinham se passado 10 minutos da última chamada para o vôo XX 69 171. Correria demente, faltava 1h30 pro jogo ainda. Quando faltava só meia hora todos pareciam que iriam matar um. Bar, amigos, só os amigos dos amigos, pouca gente, muita cerveja e coxinha. Surdo, pandeiro, repique e corneta, aka vuvuzela. Orquestra disso tudo, organizada, nego era bom, tinha ritmo e tudo, e olha que eu ainda não tinha tomado. Xingar Galvão, zoar o Arnaldo, fazer piada com o juiz e o amigo careca, tudo ali. Tensão, uhhhs, ahhhhs, viiiixes. Tudo explodindo, tudo nervos, mas impressionantemente organizado. Bola na trave, breja quase no chão. Unhas, cutículas, braço da amiga, tudo é bolinha anti-stress. Rir, de galera esse é o melhor remédio, que dúvida. De repente, a bola tá lá dentro. Grito. Abraça até os amigos dos amigos dos amigos. Já que é só a cada quatro anos que se tem essa intimidade, bora aproveitar. E se sentir estranhamente querido, aceito e brasileiro.
Mal respirei, entre um gole e outro de cerveja. Um grito e outro de raiva. Um sorriso e outro, uma piada e outra. Sem Galvão para xingar, tinha um cara sem sal do Sportv, foco no jogo. Esparramado no pufe, risada, risadas. Grita, pô, seleção é tradição. Pintura modernista do primeiro gol, passe incrível do Ricardo. E depois, uma obra impressionista de Luis Fabimano (de Diós), inspirado em Monet e Pelé, conectados por algo mais que uma rima. Chapéu em cima daqueles monstros é coisa de moleque folgado. Que bom. Se esse é o tal ópio do povo, confesso que ontem fiquei doidão. E hoje eu acordei feliz.
Muito silêncio por aqui. E o silêncio nunca vem só, traz pensamento embutido. Tenha certeza, nobre leitor, de que pensei em muita coisa nesses tempos e que nem de longe aposentar esse blog passou pela minha cabeça, deixar morrer só a chatice. Não dá, é automático, de vez em quando preciso espirrar por aqui e ser feliz. Não que não estivesse sendo esses dias, mas tava preocupado demais sendo eu mesmo. Sendo feliz de verdade, longe do mouse e do teclado, muito embora vendo eles quase que diariamente. A rotina é só ela, normal. Ver além do normal é privilégio que me foi dado não sei como e não sei por que. Mas não faz tempo e parece que uma estúpida clareza me tem arregalado os olhos ultimamente. Tem sido bom, espero que dure.
Silêncio é paz, respiro. Intervalo é melhor que pressa, que “pra ontem”. Silêncio é remédio, trabalha incansável para curar feridas, sanar dores. Adoro seguir lentamente apressado nesse mundo em que tudo já nasce velho. Me sinto novo a cada dia que se acaba de velho. Que os gritos das cornetas acordem de novo essa página, que voe aos ventos, que sacoleje ao som dos tambores desse tsunami que a cada quatro anos chacoalha essa terra. Férias ao silêncio porque ele tá precisando!